Os
quilombos foram formas de sobrevivência dos escravos no período da escravidão e
continuou sendo constituído mesmo depois da lei Áurea, pois
a liberdade não significou ter os mesmos direitos que os brancos e nem mesmo
existiam leis trabalhistas que garantissem que esses não fossem escravizados de
uma forma velada. Sendo considerado inferiores e não tendo sua humanidade
respeitada só restou refugiar-se em algum lugar para poder praticar suas
culturas e visão de mundo peculiar que era vista de forma preconceituosa e
desprezada pelo senso comum eurocêntrico.
De
acordo com a fundação Palmares mais de 2600 comunidades quilombolas tiveram seu
reconhecimento de certificação em território nacional até a presente data,
porém no Estado do Rio de Janeiro que foi um grande recebedor da mão de obra escrava
esses números ainda são contidos em relação a outros Estados como por exemplo
Pará e Maranhão. É preciso um trabalho de conscientização e valorização dos
quilombolas para que estes comecem a se identificar naturalmente, pois segundo
o documentário memórias do cativeiro produzido pela UFF, os antigos evitavam em
falar para seus filhos que eram quilombolas e sabemos o porquê dessa omissão. Não
tinha nenhuma vantagem em ser um aquilombado, pelo contrário, ser quilombola
era ter seus direitos negados pela sociedade que tinha como padrão a cultura
europeia. Com isso a memória da cultura africana foi de alguma forma alijada.
Por outro lado, buscamos esta mesma memória para resgatar a cultura e mostrar o
valor e a luta dos quilombolas em terras brasileiras, assim como identificar os
quilombos que com o tempo deixaram de fazer parte do nosso imaginário.
Para
contar a história de um lugar, a melhor maneira é contando a história de vida
das pessoas que fazem parte do acúmulo de tempo neste território, pois nada
melhor do que a memória dos que estão incluídos no processo histórico da
comunidade para relatar os acontecimentos ao longo do tempo. Para isto, nada
mais propício do que contar nossa história através dos integrantes de nossa
gente, em preferencial as mais antigas e que com o tempo acumulou conhecimento
e possa nos contar como ocorreu este processo. Lembrando Peter Burke: “buscamos
a memória como fonte histórica”, ou como diz Le Goff “a memória deve ser usada
para salvar o passado e servir ao presente e ao futuro”.
Para início vamos recorrer a história de vida da matriarca
da família Rocha que mora na comunidade desde 1953. Dona Elzi ou dona “Fia”
como todos conhecem. Com 79 anos de idade e a 62 vivendo na comunidade, esta
simpática e sempre disposta senhora tem muito saber a passar para os mais
jovens e muita história para contar.
Dona Fia lembra que quando criança passava nesta localidade
vindo de Rio preto em direção a casa de seu avô Manuel José Honorato no
quilombo de laranjeiras, lugar de difícil acesso do outro lado do rio Imbé. Seu
avô ao se casar com Rita Maria de Jesus que era aquilombada naquela localidade foi
viver e cuidar de sua vida com os demais que ali praticavam a agricultura de
subsistência. Naquele quilombo todos os negros que ali viviam tinham o seu
espaço para plantar e colher o seu sustento sem ter um vínculo direto com a
Usina Novo Horizonte. Tudo corria bem até a investida de um senhor chamado Nilso Pinto que com a pratica da
violência que como sabemos foi corriqueira contra os negros, colocou todos para
fora de suas casas e apossou de quase toda área de terra que os quilombolas
cuidavam, menos a parte que era do seu avô que enfrentou sem medo a ofensiva do
opressor.
Por sinal a família Pinto, assim como a maioria dos
fazendeiros do passado tem um histórico estreito com os quilombolas e com as
usinas em nossa região e, sabemos que fazenda e usina tiveram seu alicerce montado
em cima do trabalho escravo. Em Macaé
temos o caso do quilombola Carukango que foi morto pelo aparato montado pelo
fazendeiro da Freguesia de Nossa Senhora das Neves Capitão Antônio Pinto. Aqui
tivemos os Pereira Pinto que eram Usineiros e também políticos. Antônio Carlos
Pereira Pinto que foi político e usineiro da região escreveu o livro “quem
quebrou a casa de meu pai” contando a saga da usina de Santa Maria pertencente
ao velho Jorge como ele o chamou no livro. Neste livro tem uma passagem em que
no início do século XX seu pai Jorge Pereira Pinto montou um engenho em Rio Preto
ganhando bastante dinheiro, embora não tivesse mais escravidão nesta época,
porém foi a alavanca para a montagem da usina Santa Maria e Santa Isabel em terras campistas, ou seja, não deixava
de ser uma herança do trabalho, se não de escravos, com certeza de remanescente
dos mesmos.
Voltando
a nossa personagem principal, dona Fia nos diz que viveu em Rio Preto até os
seus 12 anos de idade quando foi morar em laranjeiras com sua mãe e seus irmãos
e ao se casar com seu Chico veio morar em Conceição do Imbé em 1953. Lembra que
tinha um casarão onde morava o administrador da fazenda e umas 15 famílias mais
ou menos e que nesta época a usina Novo Horizonte já se encontrava sob a tutela
do Banco do Brasil e só depois veio a pertencer aos Mols até sua falência ser
decretada nos anos 80 do século passado. A casa que hoje mora, dona Fia conta
que quando criança e passava por aqui em direção a casa de seu avô em
laranjeiras era ponto de parada para beber água e que era morada de encarregado
ou alguém com um cargo importante dentro da fazenda. “essa casa é centenária” diz ela sorridente. Vale lembrar que esta
fazenda fazia parte de um plantel de área de plantio de cana de açúcar para
alimentar a usina Novo Horizonte, fazendo parte além de Conceição do Imbé,
Aleluia, Batatal, Cambucá e claro a região de Rio Preto.
Para mostrar como era difícil a defesa de território contra
os fazendeiros vamos falar mais um pouco sobre o avô de dona Fia. Para não ser
expulso de suas terras, o seu avô teve que arriscar a própria vida, pois quando
o fazendeiro Nilso Pinto alegou ser dele aquela área muita gente foi posta para
a rua da amargura com uso de ameaças e da violência, onde casas foram destruídas
causando o terror nos quilombolas que ali viviam. Mas seu avô sabendo que o tal
fazendeiro não tinha direito algum sobre aquelas terras não recuou e enfrentou
a situação sem medo. Para isso primeiro ele deu parte as autoridades policiais
relatando o abuso deste senhor, porém nada sendo feito pelas autoridades que
mandou que ele defendesse sua área como bem pudesse. Vendo que iria perder seu
meio de sustento só restou para seu Manuel montar um esquema de defesa,
armando-se e aguardando a chegada do tal homem que botava todo mundo para
correr de suas casas. Quando o fazendeiro chegou em suas terras ameaçando todo
mundo, seu avô mandou que sua esposa fosse lá fora e mandasse ele ir embora,
pois ele não tinha terra nenhuma ali e que se ele insistisse em colocar seus
bois ali e partisse para destruir sua morada, assim como fizera com os outros
não lhe restava outra opção a não ser agir da mesma forma, ou seja, só restava
para sua defesa o uso da violência. O fazendeiro vendo que dona Rita estava
debatendo com autoridade e sem medo, desconfiou que tinha algo de estranho e
bateu em retirada levando seus animais e deixando-os em paz.
Desse
quilombo só quem conseguiu ficar com suas terras foi seu avô Manuel Honorato,
inclusive até hoje as terras estão lá. Mas para isto sua mãe teve que continuar
a luta de seu avô, pois quando seu Manuel morreu os grileiros apareceram
novamente com maquinas e capangas para expulsá-la, sendo que dona Doralice
Honorato vendo que iria ficar na rua com seus filhos não recuou e defendeu sua
propriedade com unhas e dentes, enfrentando sem medo da morte os invasores que
acabaram desistindo da injusta ação.
Assim
terminamos a primeira de muitas lutas dos descendentes dos que ajudaram a
desbravar essas terras que mesmo depois da libertação da escravidão tiveram que
continuar a luta pela sobrevivência e, a comunidade de Conceição do Imbé está
ligada diretamente a essa gente que continua suas vidas até a data de hoje com
luta, trabalho e perseverança, além de defender a bravura de seus ancestrais
através da memória que continua viva como nunca.
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