sexta-feira, 31 de julho de 2015

Quilombos e quilombolas na terra dos Índios Goitacá

Quando pensamos em quilombo o primeiro nome que vem ao nosso pensamento é o quilombo de Zumbi dos palmares, pois este foi e até hoje é o mais famoso ajuntamento de negros como forma de resistência a escravidão no Brasil. Porém sabe-se que muitos outros existiram em todo o país.
            A definição de quilombo hoje em dia sofreu transformação, assim como a relação dos negros com a sociedade que ao longo do tempo vem sendo trabalhada para que a visão racista e preconceituosa do passado possa ser superada, embora ainda esteja muito distante do ideal em se tratando de igualdade entre negros e brancos. Sabemos que uma comunidade negra rural que agrupa descendentes de escravos e que vive da cultura de subsistência e expressando forte vínculo com o passado em suas manifestações culturais tem ligação direta com um quilombo, ou seja, na maioria das vezes é um quilombo que teve sua memória transformada de alguma forma na tentativa de esquecer um passado de dor e sofrimento, mesmo que de forma inconsciente porque na verdade ninguém esquece de suas raízes. 
            A questão da tentativa inconsciente de querer se livrar do rótulo de quilombo era que não tinha nenhum benefício em se lembrar disso, pois quilombo era visto como lugar de negros fugidos e delinquentes, pois enquanto estavam a serviços dos seus senhores e sendo subalternos sem reclamar eram vistos apenas como bons ou maus serviçais, mas se reivindicavam direitos e condições melhores, a única coisa que ganhavam era o rótulo de desqualificados e de malfeitores.
            Hoje vejo que isso foi uma estratégia para conseguir superar as dificuldades, mesmo que seja de forma inconsciente, pois se livrar do estigma de negro era pressuposto para alcançar os direitos que foram negados aos seus antepassados. Era uma forma de criar uma identidade de acordo com as interpretações culturais que nos rodeavam, já que, em qualquer sociedade e principalmente na capitalista quando são negados os direitos sejam eles sociais, políticos ou outro qualquer e faltam forças e estratégias para lutar contra esta forma, o que resta é negar-se como tal para poder conseguir algo. Por isso é compreensível que a pouco tempo atrás o próprio negro que tivesse uma pele mais clara se negasse como tal, haja vista, não era vantagem nenhuma ser negro e temos que entender que isso fazia parte de um processo histórico, construído ao longo do tempo e que naquele momento estava tão enraizado que era visto como normal pela maioria das pessoas.
Se matar foi uma forma de continuar vivo até poder lutar pelos direitos negados até então, já que como diz os Afro-Argentinos em um artigo recente relatando a invisibilidade dos mesmos diante da falta de ações afirmativas do poder público em relação aos negros daquele país, ainda hoje “ninguém quer se identificar com o que sempre foi visto como sujo, baixo” e outros adjetivos dado pelo Euro-Argentinos que nem vale a pena mencionar aqui. Por exemplo, no censo de 2010 em torno de 150.000 pessoas se declararam afro-argentinos, mas se sabe que esse número não corresponde com a realidade, por causa da morte étnica que é imposta pela classe dominante Argentina.
            A expressão quilombo vem sendo sistematizada desde o período colonial no Brasil, pois sabemos que desde que existe escravidão, existe resistência e tentativa de se livrar desse modo de trabalho desumano e uma das maneiras de se defender era buscar refúgio em algum lugar em que o senhor não pudesse os encontrar, além do suicídio, justiçamento e insurreições como nos diz Mario Maestri em seu livro o escravismo no Brasil. Para este autor “a fuga era a maneira mais simples, segura e rápida de o negro libertar-se” e a maneira mais segura era procurar um lugar que já existisse outros negros para se organizar contra a violência dos senhores escravocratas. Existe autores como Ney Lopes afirmando que “quilombo é um conceito próprio dos africanos bantos que vem sendo modificado através dos tempos” (...) Quer dizer acampamento guerreiro na floresta, sendo entendido ainda em Angola como divisão administrativa”. No Brasil colonial qualquer ajuntamento de negros que passasse de cinco era considerado quilombo, mesmo que não tivessem habitações e pilões no local e a ordem era dar fim a organização dos negros, para isto foi criado a profissão de Capitão-do-Mato que era uma espécie de caçador de negros tidos pelos escravagista como “fujões”.
            Para Silvia Lara autora do livro “Campos da violência - escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro (1750-1808)”, não se encontrou documentos que comprove a existência de um grande quilombo na região dos Campos dos Goitacazes, porém pela presença de capitães do mato e relato de fuga de negros pode-se deduzir que existiram uma boa quantidade de quilombos nesta área. Hélvio Cordeiro conta em seu livro “Carukango o príncipe dos escravos” a saga de um moçambicano que ao ser trazido para o Brasil e adquirido por um senhor na cidade de Macaé nunca aceitou ser escravizado e, criou um quilombo na serra do deitado com uma organização bem próxima ao famoso quilombo de palmares, onde fizeram plantações e moradias de forma organizada. O pesquisador nos diz que após uma ação de fuga bem-sucedida, planejada por Carukango na fazenda a qual fazia parte do quadro de cativos “Os escravos seguiam para o cume das montanhas da serra do deitado, região habitada na época somente por índios e fugitivos, que hoje faz parte dos municípios de Macaé e Conceição de Macabu”. Outra passagem interessante é que quando o quilombo foi destruído pelo aparato militar entre as milícias do Espirito Santo e Cabo Frio montado pela família Pinto a qual pertencera Carukango, este já estava fazendo planos de mudar-se de local devido a descoberta do seu esconderijo e o destino seria a região do Imbé, local muito propício a pratica de aquilombar-se, haja vista a quantidade de comunidade quilombolas nesta localidade. Carukango e seus 200 quilombolas foram destruídos na primeira metade do século XIX pelo militar Antão de Vasconcelos e fazendeiros locais, mas deixou um legado de luta e bravura contra a escravidão de seu povo, pagando com a própria vida seu ato de repúdio a exploração humana que na verdade tinha a função de desumanizar os africanos.
Nos anos 70 e 80 do século em voga Flávio dos Santos Gomes destaca os quilombos nas terras do fazendeiro Manuel da Cruz Sena em Conceição de Macabu e Capivari hoje Quissamã, assim como o quilombo da fazenda Luanda em Campos dos Goitacazes, segundo o autor estes dois quilombos deram bastante trabalho para as autoridades locais e provinciais, contudo, as reivindicações e os números de refugiados são distintos do de Carukango, enquanto este procurava fugir da fazenda e montar um quilombo distante em lugar de difícil acesso e contava com um número considerável de negros , o primeiro era menor e manifestava melhores condições de trabalho ou a venda para outro senhor, por outro lado os aquilombados de Luanda queriam a posse da fazenda por se encontrar sem a senhora que havia falecido, porém com o tempo todos foram  liquidados através das investidas de fazendeiros e a ajuda do poder público.
            Com relação aos quilombolas da região Sivia Lara relata que em 1784 João Gomes de Sousa e seus sodados foram presos na cadeia da vila por terem morto o cabra Gabriel quilombola. Veja que este quadro é uma exceção, onde quem matou um escravo foi punido pela lei, porém a punição não era pela vida do negro, já que não haveria pena para quem matasse um negro que estivesse aquilombado e negasse a se entregar e, sim pelo prejuízo que causara ao dono do escravo, pois o senhor acabara de perder um bem que além de ter custado algum dinheiro ainda não teria seu investimento na forma de prestação de mão-de-obra já que o escravo estava morto. Segundo a autora “todos moradores e Capitães-do-mato para que dessem nos quilombos, permitindo-lhes matar, sem pena alguma da justiça, os negros que resistissem (à semelhança do praticado nas Minas Gerais”, mostrando que a câmara da vila de São Salvador estava ligada no que acontecia em outras regiões das terras Luso-Brasileira. Assim matar um negro que não aceitava ser escravizado, além de não ser crime ainda poderia render uma boa recompensa.
A figura do capitão do mato é constante nos registros que vão tratar da fuga de escravos em todo o império e em Campos dos Goitacazes não é diferente, porém é a partir do século XVIII que essa profissão aparece com mais afirmação, já que é nas primeiras décadas que aparecem regimentos locais a respeito da profissão destacando como atribuições dos mesmos e prêmios pela entrega dos fugitivos. Para a escolha do Capitão-do-Mato uma das formas de provimento era feito pelos vereadores em uma eleição, onde chamava-se o candidato aprovado para o cargo e o mesmo prestava um juramento para em seguida tomar posse. Dinheiro público era empregado neste oficio, já que em outubro de 1769 a “câmara da vila de São Salvador mandou dar ao Mestre de Campo “100$000 réis para as despesas que se haviam de fazer para preparo dos homens que haviam de dar nos quilombos dos pretos fugidos”. Nos Campos dos Goitacazes Capitães-do-Mato são encontrados na parte norte do rio paraíba, assim como abaixo do norte e sul, sertão do rio Ururaí, chapéu do sol, ponta grossa, Macaé e Lagoa de Cima, cada capitão tinha sua circunscrição e normalmente era do lugar para facilitar na busca dos fugitivos.
Sobre os quilombos Clóvis Moura vai falar em “QUILOMBOS - Resistencia ao escravismo” que “no Brasil, como em outras partes da América onde existiu o escravismo moderno, esses ajuntamentos proliferaram como sinal de protesto do negro escravo às condições desumanas e alienadas a que estavam sujeitos” e quanto mais aumentava a pratica da escravidão, a sua negação em diversas formas e principalmente a de aquilombar-se também crescia como sintoma de resistência, desta forma onde tivesse escravos tinha quilombo.
Em terras Goitacá o quilombo foi descrito pela câmara segundo Silvia Lara como um lugar “em que estivessem arranchados e fortificados com ânimo a defender-se que não sejam apanhados e não em qualquer rancho por se repararem do tempo, porém achando-se de 6 escravos para cima que estejam juntos se entenderá também quilombo”. Esta definição pouco difere da que foi dada anteriormente pelo Rei de Portugal em 1740, onde as habitações que passassem de cinco negros fugidos eram consideradas quilombo. A parte interessante da definição da câmara é que se fala em defender-se, ou seja, fica explicito que os quilombolas eram atacados de forma violenta pelos caçadores de escravos e para não voltar a vida desgraçada que lhes era imputada às vezes reagiam em defesa de sua liberdade.
            Portanto se não existem registro documental de um grande quilombo em nossas terras como diz Silvia Lara, o fato é que os quilombos existiram e em grande quantidade, para isso basta verificar a quantidade de ações contra os quilombolas. Em 1792 por exemplo, a câmara foi mobilizada para que tomasse atitude em relação aos quilombos que existiam nos sertões deste distrito, sendo montado um grande contingente de Capitães-do-Mato e ajudantes passando de 200 homens para procurar e destruir quilombos na região, obtendo um resultado satisfatório na captura e destruição das moradias quilombolas. Por outro lado, se pensamos em números maiores deste ajuntamento de escravos para sua defesa, podemos perceber que houve época que teve que tomar uma atitude mais elevada em relação aos refugiados o que mostra que nesta época teve uma organização mais elaborada por parte dos quilombolas o que nos faz lembrar do quilombo de Carukango em Macaé que tomou proporções elevadas ainda no início do século XVIII, como também os quilombos de Cruz Sena e Luanda mais ao final deste mesmo século.
            Se os documentos em muitos casos não mostram os lugares exatos dos quilombos dos Campos dos Goitacazes e, se foi feito uma tentativa de esquecer o passado para se livrar do estigma da escravidão com derrubada de antigos casarões com suas senzalas e seus troncos penalizadores e com isso cessar a evidencia histórica da escravidão, ou uma tentativa de apagar a memória através dos “monumentos documentos”, por outro lado não conseguimos apagar esta mesma memória dos que fizeram parte desse processo e como diz Le Goff “o lugar que o passado ocupa nas sociedades, o que aqui me interessa” e lembrando Peter Burke temos que recorrer a história das mentalidades, da vida cotidiana, da cultura material, do corpo etc, para que seja possível um entendimento das estruturas sociais. Para isso recorremos aos documentos vivos de nossas comunidades que com seus testemunhos orais relatam as querelas que seus antepassados tiveram para defender seus quilombos e suas vidas.
Hoje com as ações afirmativas voltada para as comunidades quilombola está fazendo com que este tema entre em discussão com maior ênfase, o que é muito importante, tanto para descobrirmos e mapear os quilombos existentes em nossa região, como também mostrar a luta e perseverança dos negros escravizados nessas terras. O passado não pode ser extinto, principalmente quando se trata de erros, pois “se não conhecemos os erros do passado corremos o risco de cometê-los no futuro”.           

Bibliografia
GOMES, Flavio dos Santos. Histórias de Quilombolas: Mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
BURKE, Peter. Testemunha ocular: História e imagem / Peter Burke; tradução Vera Maria Xavier dos Santos; revisão técnica Daniel Aarão Reis Filho. Bauru, SP. EDUSC, 2004.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas – SP. Editora da Unicamp, 1990.
CORDEIRO, Hélvio Gomes. Carukango: O príncipe dos Escravos. Campos dos Goitacazes, RJ. – Grafimar, 2009.
MOURA, Clóvis. Quilombos: Resistencia ao escravismo. São Paulo: editora Ática S.A. 1993.
MAESTRI, Mário. O escravismo no Brasil. São Paulo: Atual, 1994.
LARA, Silvia Hunold. Campos da violência: Escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro – RJ. Paz e Terra, 1988.
http://www.geledes.org.br/estrangeiros-no-proprio-pais-a-historia-dos
afroargentinos/#ixzz3gishOmwZ


Lairte Almeida – Graduando em História pela UFF

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Campos antes de ser Campos dos Goitacazes

A capitania de são Tomé teve como seu primeiro donatário Pero de Góes, que conseguiu essa concessão em 1536 e tomou posse desta vasta área em 26 de março de 1539. A gigantesca faixa de terras doada a este fidalgo era pelo litoral do rio Macaé até o rio Itabapoana em São João da Barra e pela região serrana, entre algumas cidades podemos citar São Fidelis, Itaperuna e natividade. Sendo Pero de Góes fidalgo (filho de algo, ou alguém) muito honrado, cavaleiro experimentado, em suas andanças pela costa do Brasil, se afeiçoou com essas terras e pediu ao rei D. João que na repartição das capitanias lhe fizesse merecer de uma dessas. Pedro Góes da Silveira veio para o Brasil como responsável pelas anotações na viagem da embarcação de Martin Afonso que tinha a incumbência de fazer a divisão das terras em capitanias, já que pensava ser mais fácil manter o controle territorial e evitar possíveis invasões por outros exploradores como Franceses e Holandeses que também estiveram por essas terras.
Em um lugar chamado campo, entre a ponta de Manguinhos e o rio managé, hoje rio Itabapoana, onde se encontra atualmente o município de São João da Barra perto da localidade do retiro foram construídas uma engenhoca e uma capela dedicada a santa Catarina. Estava criada a vila rainha em homenagem a rainha Catarina esposa de D. João III Rei de Portugal. Pero foi pioneiro em solo fluminense na plantação das primeiras mudas de cana-de-açúcar, trazidas de sua fazenda Madre de Deus, em São Vicente. Pretendia ele com seu engenho movido a água produzir 2.000 arroubas de açúcar, conforme relatou em carta enviada ao seu sócio Martim Ferreira em Portugal, no ano de 1545.  
Foram levados para essa região cerca de 60 escravos, sendo estes os primeiros serviçais estrangeiros desta região, depois de insatisfatória experiência com os nativos que não aceitavam o modo de trabalho escravo e, nem tinham o pensamento de acumulo de riquezas como os europeus. Lembrando que os índios não eram tão hostis conforme se falam, eles apenas não aceitavam ser escravizados, e essa guerra se deu por causa do sequestro de um chefe índio por parte de Henrique Luiz que apesar de receber o resgate, mesmo assim entregou o nativo a tribos rivais, provocando a ira de toda sua tribo. Portugal no século XV em busca das Índias encontrou a África, onde começou a negociar com os africanos e não só começou a adquirir produtos daquele continente como também deu o primeiro passo para o início do tráfico transatlântico que como sabemos trouxe só para o Brasil um número que pode chegar a cinco milhões de pessoas ao longo de 300 anos.
            Viveu Pero durante dois anos pacificamente com os denominados selvagens, período em que com a contribuição dos índios construiu suas edificações. No entanto os problemas  surgiram quando os nativos sofreram a traição feita pelo já mencionado comerciante Henrique Luiz que ao convidar o chefe dos goitacá para uma visita ao seu navio, fez deste seu prisioneiro e exigindo resgate que mesmo com o pagamento não livrou o pobre coitado de perecer nas mãos de tribos rivais na execução de rituais.[1] Com essa atitude insana, este negociante despertou a ira e a ferocidade dos nativos passando de colaboradores a inimigos mortais dos donatários que viu com o passar dos tempos seus sonhos ruírem ao sofrerem constantes ataques indígenas. Sendo assim bateu em retirada com seus malfadados colonos, abandonando sua empresa e tudo que tinha investido e planejado, e com a colaboração de seu sócio fugiu para o Espírito Santo. Tendo gasto tudo que possuía e muitas riquezas de seu sócio, Pero encontrava-se arruinado e desgostoso, aproveitou então a ajuda de Vasco Coutinho donatário da capitania do Espírito Santo que lhe cedeu algumas embarcações para voltar para Lisboa por volta de 1546, deixando abandonada essas terras que acabaram sendo ocupada por alguns “ditos” criminosos e escravos fugitivos de capitanias vizinhas, tendo esses o apoio e a proteção dos índios locais.[2]
            Posteriormente Gil de Góes sucessor e filho de Pero obteve a confirmação que esta capitania era sua por direito, e com seu sócio João Gomes Leitão tentou reergue-la do abatimento, vindo a fazer na mesma, lavouras. Mas isso não durou muito e Gil não suportando aos incessantes ataques dos índios, também a abandonou. Com o falecimento do então donatário a capitania foi incorporada à coroa em 1619.
            Sendo estas vastas e vigorosas terras desprezadas por seus antigos donos, em 19 de agosto 1627 foi feita pelo então governador do Rio de Janeiro Martin de Sá uma doação da carta de sesmarias aos sete capitães, os chamados futuramente “heréus”.  Eram eles: Gonçalo Correa, Duarte Correa, Miguel Ayres Maldonado, Antônio Pinto, João de Castilho, Manoel Correa e Miguel Riscado, por terem prestados relevantes serviços a coroa atuando em guerras e ajudando na conquista das capitanias. Esses sete capitães deveriam dividir entre si estas sesmarias pertencente agora a capitania da Paraíba do sul que ia do rio Macaé até o rio iguassu hoje Açu, que estava além do cabo de São Tomé para o norte. Fazia parte tudo que estava entre os dois rios e se alastrando para o sertão até o cume da serra, porém só em 19 de abril de 1629 os novos fazendeiros tomaram posse dessas sesmarias, combinando entre si a exploração e a divisão dessas promissoras terras.
            Depois de concedida as sesmarias partiram os sete capitães para o reconhecimento da sua nova propriedade e os primeiros contatos com os povos ali existentes. Alugando uma sumaca em cabo frio, saíram com destino a Macaé, chegando nesta localidade em 11 de dezembro de 1632, vieram dispostos e armados pois a notícia que corria era que nesta região haviam índios ferozes, mas ficaram sabendo que estas tribos mais resistentes e que teriam colocados seus dois antigos donatários para correr ficava mais ao norte, esta informação deixou-lhes mais tranquilos e animados.
            Desembarcando em Macaé encontraram uma pequena povoação amigável e que tinha uma certa organização e até um governante que lhes indagou quem eram e o que faziam ali. Informando ao administrador local quem eram e o que faziam, o mesmo se fez prestativo no que precisassem passando informações sobre as aldeias indígenas ao redor.
            Feito então o primeiro contato saíram em busca de reconhecimento das terras, onde entraram em contato com os índios que ao receberem de arco em punho, logo foram informados por um guia que foi cedido pelo governante de quem eram e o que pretendiam, sendo assim os índios abaixaram as armas e os saldaram de forma amigável. Depois destas novas andanças os novos proprietários começaram as suas empreitadas, levantando com seus herdeiros currais e com toda aquela abundância de pastos não demorou muito a começarem a colher os frutos da multiplicação dos bens ali empregados, chegando em curto prazo a exportar produtos para o Rio de Janeiro.
            Com toda essa prosperidade e as narrativas dos fazendeiros sobre os costumes indígenas, despertou o interesse de ordens religiosas como os jesuítas, beneditinos e carmelitas. Com a ajuda do general salvador Correa de Sá e Benevides e a ausência de alguns dos sete capitães esses religiosos também vão fazer parte desses campos de abundância.

           Até 1674 os sete capitães e seus herdeiros se aproveitaram desses campos, a partir deste ano numa negociação um pouco confusa na visão de Miguel Aires Maldonado um dos sete capitães, aparece uma das principais figuras de nossa região, o general Salvador Correa de Sá que consegue uma doação da capitania para seus filhos Martin Correa de Sá e João Correa de Sá. O primeiro ficou com a vila de São Salvador, hoje Campos dos Goitacazes e o segundo com a vila de São João da praia, hoje São João da Barra. Começa o domínio dos assecas por quase cem anos. Este general foi quem deu nome à nossa vila, não é por acaso que temos a igreja de São Salvador. Tendo trazidos muitos escravos da África, onde lutou e venceu a guerra contra os Holandeses em disputa por Angola, Salvador e sua família que era tradicional no Rio de Janeiro, não hesitaram em traçar essa negociata envolvendo os aliados religiosos que aqui se encontravam para se apossar das sesmarias dos ``heréus`` e começar a extinção dos nativos, já que estes eram vistos como preguiçosos por não aceitarem serem seus serviçais. Contra esses coitados foram usados bebidas envenenadas, roupas com vírus e até arma de fogo até serem completamente dizimados, haja vista o desconhecimento de algum descente direto de nativos em nossa região.
Em 1753, finalmente a Capitania volta à mão da coroa, através do levante de uma mulher chamada Benta Pereira, considerada por muitos como heroína e vista por outros como defensora de seus próprios interesses, já que era grande fazendeira e os assecas estavam usurpando todos os proprietários de terras com altos forais. Voltava a capitania para a coroa e sendo incorporada a capitania do espírito santo. Como podemos observar em certo período quem nasceu nessas terras teve sua naturalidade ligada aos capixabas.
Neste breve histórico temos uma pequena noção do início da nossa terra goitacá, por isso devemos valorizar cada vez mais o nosso passado e com isso o nosso patrimônio histórico que também é riquíssimo e ainda pouco explorado
             
[1] LAMEGO, Alberto. Terra goitacá, 1944. Vol.2 p 66
[2] FEYDIT Julio. Subsídios para a história dos campos dos Goytacazes,


Lairte Almeida: Graduando em história pela UFF 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Rebeldia Negra


Na tentativa de se subverter ou alterar as regras do sistema, negros se rebelavam e utilizaram táticas que se alternavam ao longo dos tempos. Por conta disto, senhores também tiveram de rever seus conceitos. As ações promovidas pelos cativos variavam e eram diferenciadas.  De acordo com Thornton pode-se caracterizar estas ações em três níveis. Segundo ele no primeiro nível, há a diminuição do ritmo de trabalho, baixa auto-estima e atrasos notórios no processo de produção, chamado comumente de “resistência cotidiana”. Os outros dois níveis seriam as fugas, que ocorriam com objetivos distintos.[1] Havia grupos que fugiam pensando em voltar, buscando após a fuga uma negociação com seus senhores para conseguirem melhores condições de vida nas próprias fazendas. Estes não esperavam melhor sorte nas matas como foragidos sempre preocupados com as constantes expedições militares a lhes perseguir. Alguns escravos tinham isto como prática cotidiana. Um escravo valioso acabava não sendo punido, podendo ser até perdoado e recompensado ao voltar.[2] A respeito disto Thornton completa, dizendo que,
Esses “meio fugitivos”, que se ausentaram, mas que não tentaram libertar-se estavam propensos a usar o comportamento como instrumento de negociações importantes. As leis estabeleciam punições duras e até mesmo cruéis aos fugitivos. Porém, os senhores não precisavam punir seus escravos fugitivos seguindo o rigor da lei. Muitos escravos procuraram melhorar portanto sua situação através da fuga ou, ausentando-se do trabalho. Sem dúvida muitos ausentes sofreram punições, e muitos, talvez, lucraram pouco com o retorno. Para muitos a fuga assemelhava-se mais a uma greve moderna ou uma paralisação do trabalho do que uma tentativa de obter a liberdade. Esses motivos podem ter levado os escravos fugitivos a fugir para regiões nas proximidades ou mesmo para dentro do lugar onde trabalhavam. [3]
Reis e Silva completam dizendo que “muitas fugas, representavam no fundo, reações a quebra de acordo por senhores excessivamente severos ou secos como poeira, e que pequenas reivindicações deviam ser respeitadas.[4]Sobre esta forma de fuga em que o escravizado dirigia-se para lugares próximos ou até mesmo para o território nas redondezas do seu local de trabalho, Márcia Amantino nos apresenta um caso ocorrido no município de Macaé no ano de 1876 na freguesia de Macabu, fazenda santo Antônio, pertencente a Manoel da Cruz Senna.
 A respeito do ocorrido, Amantino cita que

O caso deste quilombo é um exemplo de como podiam ser estruturadas as relações dos quilombolas com seu ex senhor. De acordo com as declarações de Manoel da Cruz Senna, este quilombo se formou durante cinco anos com escravos fugidos de sua fazenda. Em momento algum estes fugitivos saíram de sua propriedade, ou seja, o quilombo foi formado dentro da área da própria fazenda e vivia de ataques e roubos as plantações da mesma.[5]

1.4.O quilombo Cruz Senna
No caso do quilombo de Cruz Senna, após inúmeras investidas e tentativas do fazendeiro de reaver suas “peças” e acabar com o quilombo, os escravos acabaram por se entregar a justiça e alegando terem fugido por conta dos maus tratos que sofriam, acabaram por conseguir serem vendidos para outro proprietário. Outros foram presos devido a envolvimento na morte de um miliciano imbuído da missão de destruir o quilombo.[6] Temos neste caso do quilombo de Cruz Senna a visualização do “meio fugitivo” que não visualizava a possibilidade de acabar com a escravidão, e sim melhorar suas condições dentro do próprio sistema. Geralmente escravos que fugiam pensando no retorno, eram os que detinham algo para negociar, como certa habilidade para algum afazer no engenho ou em algum outro serviço. Júlio Feydit relata a compra de um escravo pelo alferes Joaquim Vicente dos Reis, dizendo que o tal escravo por não se conformar com sua sorte, vivia fugindo, mas sempre retornava apadrinhado por algum outro fazendeiro. Este escravo era uma exceção entre os seus companheiros de cativeiro: era um cirurgião. [7] Silvia Lara ao analisar a violência da escravidão no mesmo município de Campos dos Goytacazes, relata a atividade escrava dizendo que na fabricação do açúcar, o “mestre de açúcar” era um cargo bastante importante, pois era quem detinha o saber técnico do processo de transformação do caldo da cana em açúcar. Antonil estimava, em 1711, em 100$000 a 120$000 réis o soldo de um mestre de açúcar que fizesse 4 a 5 mil Pães por ano, e considerava-o como um trabalhador livre. Em quatro processos analisados, no entanto, encontramos mestres de açúcar escravos. Havia aindaNa  escravos pescadores, escravos que levavam recados ou objetos para seus senhores, escravas lavadeiras, cozinheiras e outras mais que faziam o serviço “de portas adentro”. A especialização mais comum, no entanto era a dos escravos empregados nos diversos ofícios: em Campos dos Goytacazes, encontramos escravos sapateiros, tecelões, carpinteiros, seleiros, alfaiates, pedreiros, costureiras, barbeiro, paneiro e até mesmo um cirurgião. O escravo Inácio, pertencente á antiga fazenda dos jesuítas em Campos, que passou para a coroa depois da expulsão dos inacianos, foi levado em janeiro de 1770 para o hospital militar do Rio de Janeiro para “entre os enfermeiros (...) assistir á prática do curativo para se exercitar na arte da cirurgia.[8]
Este homem, habilidoso, era o que poderia obter certa vantagem em relação aos demais escravizados sem nenhuma habilidade definida, pois seus serviços poderiam auferir altos lucros nas atividades de escravo de ganho.[9] Com relação à substituição do homem livre pelo escravo em determinadas funções não apenas nos engenhos, isto passa a ocorrer a partir de meados do século XVIII. O motivo? Baratear o custo da produção. Esta mudança passa a criar certas possibilidades para os cativos que, Schwartz relata da seguinte forma:
As oportunidades que esses cargos especializados ofereciam eram incentivos, pois a diferenciação social do engenho criava as possibilidades de promoção dentro da força de trabalho e dentro da hierarquia da lavoura. Por fim com o advento das tecnologias mais complexas em fins do século XVIII e no século XIX, os agricultores brasileiros reclamavam da ignorância dos escravos e dos trabalhadores negros livres, que ainda tratavam o fabrico do açúcar como arte, e não como ciência, mas em pouco tempo os agricultores haviam lucrado com os custos operacionais mais baixos e com a manipulação das nomeações decorrentes do uso desses trabalhadores.[10]
Sobre a produção de açúcar, há que se levar em conta toda a sua complexidade. Um escravo que trabalhasse diretamente no processo de produção deveria ser muito cuidadoso, e o próprio senhor deveria tomar algumas precauções ao lidar com o mesmo. A fabricação do açúcar não seria simplesmente viável sem uma negociação. A sabotagem era um perigo constante. Fagulhas nos canaviais, limão nas tachas, dentes quebrados na moenda – tudo podia arruinar a safra.[11] Logo, senhores e escravos precisavam de uma cooperação mútua, e isto acabava gerando para o cativo certas vantagens.
Voltando a discussão dos níveis definidos por Thornton, e analisando o terceiro nível, em que se enquadravam os escravos mais obstinados, a fuga era vista como uma forma para buscar construir uma sociedade diferente daquela do cativeiro. Thornton observa que este último grupo era o que almejava a queda definitiva do sistema de escravidão colonial e a substituição do governo da classe dominante por um comandado pelos antigos escravos.[12] Outro fato que merece atenção, é que as formas de promoção destas ações estavam intrinsecamente ligadas ao cotidiano vivido por estas pessoas em sua região de origem no Continente Africano. Em África os escravizados resistiram e foi comum a rebeldia, havendo sempre luta e resistência.[13]
Um fator importante para o desenvolvimento das insurreições está no fato de que muitos negros aqui desembarcados foram em suas regiões de origem experientes líderes militares, e esta fora a contribuição mais importante da herança africana que muitos escravos tinham, por ter a maioria prestado serviço militar nos exércitos de sua terra natal. A aristocracia africana e a cultura militar ajudaram a despertar a rebelião e a gerar a liderança.[14] Estes escravos que tinham a intenção de se verem afastados da vida no cativeiro em muitos momentos buscaram regiões inóspitas, algumas vezes atacando aqueles que se colocassem em seu caminho.[15] A maioria dos especialistas entende que os que procuravam a liberdade definitiva eram freqüentemente nascidos no continente africano.[16] Um exemplo deste desenvolvimento militar colocado em ação em terras americanas, foi o caso ocorrido em 1522 na América espanhola, quando escravos provenientes do reino Jalofo, atual Senegal, se revoltaram, e
Não só mostraram grande frieza ao enfrentar o ataque da cavalaria espanhola, abrindo fileiras e permitindo que o cavalo passasse por ela, girando então para fazer um contra ataque, como também criaram uma cavalaria própria e a usaram para devastar os engenhos de açúcar de Hispaniola nos anos de 1540.[17]
Táticas militares e planejamento estiveram ligadas não apenas a este acontecido com os escravos Jalofos,mas a muitas outras insurreições.  Em muitos dos casos já analisados pela historiografia, constatou-se forte poder de articulação e envolvimento de vários atores. Outro exemplo nos é apresentado por Lima. Trata-se do quilombo de Manoel Congo, em Vassouras, que teria existido e alarmado as autoridades fluminenses nos anos 30 do século XIX. Este quilombo e seus membros foram responsabilizados por vários saques e depredações a várias fazendas nas redondezas.  A mesma relata que
"alarmados, os fazendeiros apelaram para o governo imperial, que lhes enviou um destacamento de tropas regulares comandado por Caxias. O ataque ao quilombo se deu no dia 11 de dezembro de 1838, constituindo verdadeira carnificina, pois não tinham os negros condições de reagir em pé de igualdade ás forças enviadas. A devassa referente ao movimento revelou um princípio de articulação entre seus membros, os quais haviam formado uma organização secreta suspeita de manter relações com os negros malês da Bahia, sublevados nesse período... A devassa instaurada desvendou reminiscências de organização tribal no movimento, cujos chefes, chamados “Tatetes Corongos”, procuravam congregar os negros na luta pela libertação. [18]
Movimentos como as revoltas dos Malês na primeira metade do século XIX na Bahia são outros exemplos de organização promovida por escravos.




[1] Idem, p.356.
[2] Ibdem. Op.cit, p.361.
[3] THORNTON, John Kelly, op.cit.p.360-365.
[4] SILVA, Eduardo. REIS, João José. Op.cit. p.64.
[5] AMANTINO, Marcia Sueli. Quilombos em Macaé no século XIX. Cadernos de ciências humanas – especiarias, volume 19, nº 18, jul – dez 2007, p. 634.
[6] Idem, p.635-642.
[7] FEYDIT, Júlio. Subsídios para a história dos Campos dos Goytacazes. São João da Barra. Gráfica Luartson, 2004, p.348-349.
[8] LARA, Silvia Hunold. Campos de violência. Escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro 1750-1808. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1988.p.185-188.
[9] Escravo de ganho era aquele escravo que no período colonial e imperial realizavam tarefas remuneradas para outros senhores, alugando seus serviços e posteriormente repassando a maior parte de seus ganhos a seu dono.
[10] SCHWARTZ, Stuart. Op.cit.p.97.
[11] REIS, João José. SILVA, Eduardo. Op.cit.p.18.
[12] Ibdem, pp.356.
[13] LIMA, Lana Lage da Gama. Op.cit. p.20.
[14] THORNTON, John Kelly. Op.cit.p.364.
[15] Idem.p.364-365.
[16] Ibdem, p.365.
[17] THORNTON, John Kelly. Op.cit.p.381.
Por Alex Grijó: Graduado em História pela Universo, Pós graduado Em cultura Afro pela FeMASS e Especialista em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Carukango, o príncipe Quilombola de Macaé.

Ainda há muitos aspectos sobre a escravidão e o cotidiano do período escravocrata brasileiro que está sendo reescrito. Teria dito certo Historiador que o "passado está em constante movimento". Pode-se dizer que isto é a pura verdade. Há uma bibliografia muito extensa sobre nosso passado e sobre os encontros e desencontros destas pessoas que durante mais de três séculos viveram sob o jugo do cativeiro. Infelizmente muito do que sabemos provém das fontes escritas pelo homem branco, ou seja, o dominador.
 Estudos produzidos principalmente a partir da década de 1970, como os de Ciro Cardoso, Kátia Matoso, Flávio Gomes, Robert Slenes e Sidney Chalhoub têm mostrado um universo muito mais complexo que aquele descrito e estudado por vários Historiadores anteriores. Sheila de Castro Faria em “A Colônia em movimento” ao analisar a história das famílias, a dinâmica de áreas rurais e a expansão das atividades econômicas, relata que nestes estudos os negros vêm surgindo como agentes históricos, mesmo que com certo desprestígio.
 Em recentes pesquisas, dentre estas as de Chalhoub, emerge uma nova visão do comportamento escravo e da rebeldia e posicionamento dos mesmos diante das adversidades. De acordo com Flávio Gomes passa a haver uma contestação das concepções que viam as relações senhor/escravo marcadas tão somente por uma visão paternalista da escravidão. Há uma maior ênfase na descrição dos quilombos e seus líderes de caráter revolucionário com maior consciência de suas ações, além da análise de outras formas de resistência, como determinadas negociações buscando melhorias em sua vida cotidiana, que até então foram descritas como passivas e de caráter histórico desmerecido. Estes estudos têm demonstrado que estas resistências devem ser entendidas não como “passivas”, mas sim como “uma das faces das complexas lutas vivenciadas pelos escravos e que tinha como contraponto a reelaboração permanente das relações com seus senhores”.[2]
O que se pode entender destas formas de resistência, é que através delas, os escravos buscavam se reconstituir como pessoas, alterando, modificando e adequando a dominação senhorial na tentativa de reconstruírem suas vidas. Trata-se de novos meios para enfrentar o sistema, que não se limitou a insurgências e fugas. Gomes relata, por exemplo, que negros escravos no Caribe estavam muito bem informados a respeito das discussões no parlamento inglês, “e tentavam na medida do possível, tirar proveito de tal situação, a partir de suas próprias lógicas”.[3]
Outra idéia difundida e muito questionada, e que tem na obra de Gilberto Freire “Casagrande e senzala” sua principal argumentação, é a da idéia de paternalismo e benignidade da escravidão, com uma relação muito próxima, e muitas vezes promíscua entre senhor/escravo. Tal visão tem sido alvo de inúmeras críticas nos anos que sucederam a sua publicação (1930), provocando vários debates. As pesquisas dos autores citados anteriormente não demonstram tal paternalismo. Estas pesquisas buscam dar voz a estas pessoas escravizadas, apreendendo discursos e argumentos para compreender sua percepção diante do cativeiro. Chalhoub acrescenta que

“o mito do caráter benevolente ou não violento da escravidão no Brasil já foi sobejamente demolido pela produção acadêmica das décadas de 1960 e 1970 e, no momento em que escrevo, não vejo no horizonte ninguém minimamente competente no assunto que queira argumentar o contrário”.


        
Sobre a formação dos Quilombos também há uma enorme gama de livros e artigos publicados que nos apresentam inúmeras facetas desta forma de rebeldia. A mais conhecida destas formas de rebeldia, e que realmente se destacou fora de fato à fuga e a conseqüente formação dos quilombos. Isto ocorreu desde a chegada dos primeiros africanos ao Brasil. Os quilombos alarmavam e preocupavam as autoridades desde meados do século XVI, tanto que propiciou no ano de 1699, a isenção de punição para aquele que matasse um escravo fugitivo no momento de sua captura. No ano de 1701 os famosos caçadores de negros fujões, conhecidos entre outros nomes, como capitães do mato, recebem concessão que será regulamentada em 1724, o prêmio de seis oitavas de ouro por cabeça de negro aquilombado morto em combate. Apesar das perseguições e da violência a que eram submetidos os negros recapturados, os quilombos não deixaram de se reproduzir.
De acordo com Lima, os negros apesar de buscarem lugares de difícil acesso para se esconderem, não procuravam se afastar tanto assim, por necessitarem do contato com povoações para a aquisição de gêneros que não pudessem produzir. Os mesmos se utilizavam tanto de roubos quanto de negociações para esta aquisição. Quando se faz alguma referência a quilombos, a primeira coisa que nos vem à cabeça é Palmares e seu conhecido líder Zumbi. Este foi o maior de todos, tanto no que diz respeito à duração quanto à extensão e número de habitantes. Ainda segundo Lima, o mesmo já existia por volta de 1602-1608 e sua queda só se dará em 1694.De acordo com Moura, “Palmares foi à maior manifestação de rebeldia contra o escravismo na América Latina e durante seu período de duração desestabilizou regionalmente o sistema.  Diferentemente da opinião de Moura, Lima diz que os quilombos não ameaçavam o sistema, mas ocasionavam certo desgaste ao seu funcionamento causando-lhe sérios prejuízos materiais; não tanto por suas investidas contra os povoados ou por recursos desviados, mas pelo grande número de negros que mantinham afastados do processo produtivo.
 O que estas pessoas buscavam era de fato uma reordenação no sistema ao qual estavam inseridas de forma extremamente desfavorável. Por não se conformarem com sua situação, buscaram meios de mudanças no rumo de suas vidas. Sabe-se que a condução do destino de uma pessoa escravizada é anulada ou reduzida ao limite, mas mesmo assim, em muitos momentos os mesmos conseguiram obter mudanças significativas em suas relações, e ajudar, mesmo que lentamente, a desestruturação do sistema escravocrata. Thornton nos revela que em condições difíceis,

sempre há pessoas, quer exploradas, quer privilegiadas, que não vêem como mudar ou melhorar sua sorte seguindo as regras do sistema. Essas pessoas procuram ir além das circunstâncias que a escravidão lhes impõe e exigem mais do que seus donos ou governantes estão dispostos a dar lhes por livre vontade. Esses descontentes eram os resistentes, os rebeldes ou os fugitivos. Cada um a seu modo e de acordo com seus próprios meios, procurava alterar o sistema e suas regras.

           Neste contexto é que talvez se enquadre o quilombo de Carukango. Este quilombo teria sido um dos maiores da História do Rio de Janeiro, e quem sabe o maior. Carukango teria sido um escravo proveniente da atual região de Moçambique e teria sido lá em sua tribo membro de uma família real. Isto seria um dos motivos que o levariam a se revoltar constantemente com o cativeiro sendo visto como um escravo arredio e problemático. Carukango teria pertencido ao capitão Antônio Pinto, fazendeiro da região de Nossa Senhora das Neves, região bastante extensa a época e que ficava no município de Macaé, e que hoje se encontra também dividido com o município vizinho de Conceição de Macabu.
Segundo o jornalista Hélvio Gomes Cordeiro, nesta fazenda o escravo Carukango teria recebido a denominação de Dodô Moçambique, e que segundo o jornalista, não foi aceito por Carukango.  Hélvio também relata que Karukango teria vivido na fazenda por aproximadamente oito anos e teria, por conta de sua rebeldia, sofrido constantes castigos que acabaram por deixá-lo com uma deformação na perna esquerda acabando por ficar manco.  Carukango seria uma pessoa de personalidade forte, que acabava por incentivar comportamentos arredios para com seus senhores por parte de outros escravizados. Tinha fama de feiticeiro por manter firme suas crenças religiosas e seus costumes que vieram com ele de sua terra mãe África. Carukango seria o tipo de escravizado que se enquadraria na definição de Thornton como o que almejava a queda definitiva do sistema de escravidão colonial e a substituição do governo da classe dominante por um comandado pelos antigos escravos.
         Carukango teria fugido pelo menos duas vezes antes de sua fuga definitiva e da formação de seu quilombo na serra do deitado. A fuga definitiva teria ocorrido no ano de 1822. No dia da fuga Carukango teria matado o capataz Corisco, que seria o responsável por muitas das surras que teria tomado durante os mais de oito anos em que vivera na fazenda do Capitão Pinto. De acordo com Hélvio Gomes, na noite da fuga os fugitivos arrombaram o armazém da fazenda levando tudo que poderiam e lhes seria necessário. Teriam também degolado alguns escravos velhos que não tinham condições de fugir para que estes não os delatassem. Os agora livres seguiram para a já citada serra do deitado e lá teriam se estabelecido passando a cultivar plantações variadas que iriam lhes servir de alimento.
Do quilombo estes homens saiam para saquear propriedades trazendo consigo escravizados por vontade própria e em alguns casos a força, fato que ocorria com mais frequência em relação as mulheres.
        Ainda segundo Hélvio Gomes, Carukango como líder quilombola exigia  daqueles que passassem a acompanhá-lo, que  a partir daquele momento deixassem de lado suas crenças cristãs e a linguagem do dominador, passando a usar a "linguagem da mãe África".  Este último ponto é questionável, visto que os escravos provenientes do continente africano vinham de lugares diferentes, falavam línguas muito difusas tendo em vista a imensidão de tribos existentes em Angola e Moçambique apenas.
       Os constantes ataques as fazendas e os consequentes prejuízos dados aos fazendeiros locais fez com que os mesmos começassem a tomar medidas para conter os problemas causados e buscar encontrar e destruir o quilombo de Carukango. Hélvio Gomes nos conta que o capitão Chico Domingues e Antonio Pinto teriam se organizado para destruir o quilombo pedindo auxílio ao Coronel Antão de Vasconcellos que viria do Espírito Santo para esta missão. A milícia do Coronel Vasconcellos se uniu as forças que já se encontravam em Macaé a sua espera. Seguiram em direção a serra do deitado e teriam disputado algumas batalhas antes do confronto final. Os quilombolas tinham a vantagem de conhecerem o local. A captura de um membro do quilombo  fez com que este revelasse o local exato do quilombo. Em seguida o Coronel colocou em prática um plano em que os acessos ao quilombo foram bloqueados deixando os seus membros em uma situação crítica. Nas palavras de Hélvio Gomes, os milicianos ao chegarem ao topo do platô teriam encontrado "diversas plantações que cobriam a terra tendo ao centro uma enorme casa de pau a pique com telhado de palha. Esta que aparentava ser a casa principal, escondia, na realidade, a boca da gruta, que era onde viviam os negros".
       Com a chegada das tropas do coronel houve uma sangrenta batalha. Haviam em torno de 200 quilombolas entre homens, mulheres e crianças armados com garruchas, espingardas, foices e facões. O combate teria sido extremamente desigual  visto que os homens do coronel possuíam muito mais armas e entre estas alguns canhões de artilharia pesada. Grande parte dos quilombolas teria morrido por conta dos ataques. Alguns teriam fugido a mando de Carukango que acreditava ainda poder recriar o quilombo em outro lugar. O fim de Carukango e de seu quilombo tem algo de lendário. A história que é contada e que conheço a partir de conversas com a Historiadora Conceição Franco, uma grande estudiosa deste assunto, é de que Carukango teria saído vestindo um manto branco com um crucifixo ao peito, talvez para sensibilizar os cristãos ali presentes. De repente ele sacaria duas garruchas e atiraria contra o filho de Antônio Pinto matando-o na hora.
       Os milicianos revidaram e Carukango seria morto por muitos tiros tendo seu corpo em seguida sido totalmente destroçado. As casas existentes foram destruídas, as plantações incendiadas e os corpos jogados em um penhasco ali existente. Durante muitos anos esta História teria poucos fundamentos para ser considerada verídica, pois havia apenas os relatos do neto de Antão de Vasconcellos como fonte, e que dissera ter ouvido de seu avô quando criança os relatos sobre o  ocorrido. Mas quase 200 anos depois do acontecido foi encontrado pela Historiadora Conceição Franco na Igreja do Trapiche documentos eclesiásticos que confirmariam toda a História que Antão de Vasconcellos contara a seu neto, e que este publicara em livro. Pesquisadores como Hélvio Gomes, Conceição Franco e Marcelo Abreu buscam agora quem sabe, encontrar vestígios e artefatos do antigo Quilombo que identifiquem sua exata localização.



 Cordeiro, Hélvio Gomes. Carukango - O príncipe dos escravos. Editora Grafimar, Campos dos Goitacases, 2009.
. THORTON, John Kelly. A África e os africanos na formação do mundo Atlântico, 1400 – 1800/Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
 LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra e abolicionismo. -Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.

 MOURA, Clóvis. Quilombos. Resistência ao escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1993, pp.38.

 GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: Mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995,pp.17-19.

 CHALHOUB, Sidney. . Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990

 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.pp.290.

Por  Alex Grijó: Graduado em História pela Universo, Pós graduado Em cultura Afro pela FeMASS e Especialista em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes.