quarta-feira, 15 de julho de 2015

Campos antes de ser Campos dos Goitacazes

A capitania de são Tomé teve como seu primeiro donatário Pero de Góes, que conseguiu essa concessão em 1536 e tomou posse desta vasta área em 26 de março de 1539. A gigantesca faixa de terras doada a este fidalgo era pelo litoral do rio Macaé até o rio Itabapoana em São João da Barra e pela região serrana, entre algumas cidades podemos citar São Fidelis, Itaperuna e natividade. Sendo Pero de Góes fidalgo (filho de algo, ou alguém) muito honrado, cavaleiro experimentado, em suas andanças pela costa do Brasil, se afeiçoou com essas terras e pediu ao rei D. João que na repartição das capitanias lhe fizesse merecer de uma dessas. Pedro Góes da Silveira veio para o Brasil como responsável pelas anotações na viagem da embarcação de Martin Afonso que tinha a incumbência de fazer a divisão das terras em capitanias, já que pensava ser mais fácil manter o controle territorial e evitar possíveis invasões por outros exploradores como Franceses e Holandeses que também estiveram por essas terras.
Em um lugar chamado campo, entre a ponta de Manguinhos e o rio managé, hoje rio Itabapoana, onde se encontra atualmente o município de São João da Barra perto da localidade do retiro foram construídas uma engenhoca e uma capela dedicada a santa Catarina. Estava criada a vila rainha em homenagem a rainha Catarina esposa de D. João III Rei de Portugal. Pero foi pioneiro em solo fluminense na plantação das primeiras mudas de cana-de-açúcar, trazidas de sua fazenda Madre de Deus, em São Vicente. Pretendia ele com seu engenho movido a água produzir 2.000 arroubas de açúcar, conforme relatou em carta enviada ao seu sócio Martim Ferreira em Portugal, no ano de 1545.  
Foram levados para essa região cerca de 60 escravos, sendo estes os primeiros serviçais estrangeiros desta região, depois de insatisfatória experiência com os nativos que não aceitavam o modo de trabalho escravo e, nem tinham o pensamento de acumulo de riquezas como os europeus. Lembrando que os índios não eram tão hostis conforme se falam, eles apenas não aceitavam ser escravizados, e essa guerra se deu por causa do sequestro de um chefe índio por parte de Henrique Luiz que apesar de receber o resgate, mesmo assim entregou o nativo a tribos rivais, provocando a ira de toda sua tribo. Portugal no século XV em busca das Índias encontrou a África, onde começou a negociar com os africanos e não só começou a adquirir produtos daquele continente como também deu o primeiro passo para o início do tráfico transatlântico que como sabemos trouxe só para o Brasil um número que pode chegar a cinco milhões de pessoas ao longo de 300 anos.
            Viveu Pero durante dois anos pacificamente com os denominados selvagens, período em que com a contribuição dos índios construiu suas edificações. No entanto os problemas  surgiram quando os nativos sofreram a traição feita pelo já mencionado comerciante Henrique Luiz que ao convidar o chefe dos goitacá para uma visita ao seu navio, fez deste seu prisioneiro e exigindo resgate que mesmo com o pagamento não livrou o pobre coitado de perecer nas mãos de tribos rivais na execução de rituais.[1] Com essa atitude insana, este negociante despertou a ira e a ferocidade dos nativos passando de colaboradores a inimigos mortais dos donatários que viu com o passar dos tempos seus sonhos ruírem ao sofrerem constantes ataques indígenas. Sendo assim bateu em retirada com seus malfadados colonos, abandonando sua empresa e tudo que tinha investido e planejado, e com a colaboração de seu sócio fugiu para o Espírito Santo. Tendo gasto tudo que possuía e muitas riquezas de seu sócio, Pero encontrava-se arruinado e desgostoso, aproveitou então a ajuda de Vasco Coutinho donatário da capitania do Espírito Santo que lhe cedeu algumas embarcações para voltar para Lisboa por volta de 1546, deixando abandonada essas terras que acabaram sendo ocupada por alguns “ditos” criminosos e escravos fugitivos de capitanias vizinhas, tendo esses o apoio e a proteção dos índios locais.[2]
            Posteriormente Gil de Góes sucessor e filho de Pero obteve a confirmação que esta capitania era sua por direito, e com seu sócio João Gomes Leitão tentou reergue-la do abatimento, vindo a fazer na mesma, lavouras. Mas isso não durou muito e Gil não suportando aos incessantes ataques dos índios, também a abandonou. Com o falecimento do então donatário a capitania foi incorporada à coroa em 1619.
            Sendo estas vastas e vigorosas terras desprezadas por seus antigos donos, em 19 de agosto 1627 foi feita pelo então governador do Rio de Janeiro Martin de Sá uma doação da carta de sesmarias aos sete capitães, os chamados futuramente “heréus”.  Eram eles: Gonçalo Correa, Duarte Correa, Miguel Ayres Maldonado, Antônio Pinto, João de Castilho, Manoel Correa e Miguel Riscado, por terem prestados relevantes serviços a coroa atuando em guerras e ajudando na conquista das capitanias. Esses sete capitães deveriam dividir entre si estas sesmarias pertencente agora a capitania da Paraíba do sul que ia do rio Macaé até o rio iguassu hoje Açu, que estava além do cabo de São Tomé para o norte. Fazia parte tudo que estava entre os dois rios e se alastrando para o sertão até o cume da serra, porém só em 19 de abril de 1629 os novos fazendeiros tomaram posse dessas sesmarias, combinando entre si a exploração e a divisão dessas promissoras terras.
            Depois de concedida as sesmarias partiram os sete capitães para o reconhecimento da sua nova propriedade e os primeiros contatos com os povos ali existentes. Alugando uma sumaca em cabo frio, saíram com destino a Macaé, chegando nesta localidade em 11 de dezembro de 1632, vieram dispostos e armados pois a notícia que corria era que nesta região haviam índios ferozes, mas ficaram sabendo que estas tribos mais resistentes e que teriam colocados seus dois antigos donatários para correr ficava mais ao norte, esta informação deixou-lhes mais tranquilos e animados.
            Desembarcando em Macaé encontraram uma pequena povoação amigável e que tinha uma certa organização e até um governante que lhes indagou quem eram e o que faziam ali. Informando ao administrador local quem eram e o que faziam, o mesmo se fez prestativo no que precisassem passando informações sobre as aldeias indígenas ao redor.
            Feito então o primeiro contato saíram em busca de reconhecimento das terras, onde entraram em contato com os índios que ao receberem de arco em punho, logo foram informados por um guia que foi cedido pelo governante de quem eram e o que pretendiam, sendo assim os índios abaixaram as armas e os saldaram de forma amigável. Depois destas novas andanças os novos proprietários começaram as suas empreitadas, levantando com seus herdeiros currais e com toda aquela abundância de pastos não demorou muito a começarem a colher os frutos da multiplicação dos bens ali empregados, chegando em curto prazo a exportar produtos para o Rio de Janeiro.
            Com toda essa prosperidade e as narrativas dos fazendeiros sobre os costumes indígenas, despertou o interesse de ordens religiosas como os jesuítas, beneditinos e carmelitas. Com a ajuda do general salvador Correa de Sá e Benevides e a ausência de alguns dos sete capitães esses religiosos também vão fazer parte desses campos de abundância.

           Até 1674 os sete capitães e seus herdeiros se aproveitaram desses campos, a partir deste ano numa negociação um pouco confusa na visão de Miguel Aires Maldonado um dos sete capitães, aparece uma das principais figuras de nossa região, o general Salvador Correa de Sá que consegue uma doação da capitania para seus filhos Martin Correa de Sá e João Correa de Sá. O primeiro ficou com a vila de São Salvador, hoje Campos dos Goitacazes e o segundo com a vila de São João da praia, hoje São João da Barra. Começa o domínio dos assecas por quase cem anos. Este general foi quem deu nome à nossa vila, não é por acaso que temos a igreja de São Salvador. Tendo trazidos muitos escravos da África, onde lutou e venceu a guerra contra os Holandeses em disputa por Angola, Salvador e sua família que era tradicional no Rio de Janeiro, não hesitaram em traçar essa negociata envolvendo os aliados religiosos que aqui se encontravam para se apossar das sesmarias dos ``heréus`` e começar a extinção dos nativos, já que estes eram vistos como preguiçosos por não aceitarem serem seus serviçais. Contra esses coitados foram usados bebidas envenenadas, roupas com vírus e até arma de fogo até serem completamente dizimados, haja vista o desconhecimento de algum descente direto de nativos em nossa região.
Em 1753, finalmente a Capitania volta à mão da coroa, através do levante de uma mulher chamada Benta Pereira, considerada por muitos como heroína e vista por outros como defensora de seus próprios interesses, já que era grande fazendeira e os assecas estavam usurpando todos os proprietários de terras com altos forais. Voltava a capitania para a coroa e sendo incorporada a capitania do espírito santo. Como podemos observar em certo período quem nasceu nessas terras teve sua naturalidade ligada aos capixabas.
Neste breve histórico temos uma pequena noção do início da nossa terra goitacá, por isso devemos valorizar cada vez mais o nosso passado e com isso o nosso patrimônio histórico que também é riquíssimo e ainda pouco explorado
             
[1] LAMEGO, Alberto. Terra goitacá, 1944. Vol.2 p 66
[2] FEYDIT Julio. Subsídios para a história dos campos dos Goytacazes,


Lairte Almeida: Graduando em história pela UFF 

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