Aconteceu
neste domingo dia 06 de dezembro de 2015 na cidade de presidente Kennedy no Espírito Santo o terceiro evento cultural das comunidades quilombolas do quipea.
O encontro contou com um número em torno de duas mil pessoas pertencentes as
vinte comunidades que são atingidas pela exploração de petróleo na região do Espírito Santo e Rio de Janeiro, onde cada comunidade levou um pouco de sua
cultura e seus produtos para compartilhar com os presentes.
Produtos
como artesanatos, doces, tapiocas e outros produtos produzidos pelos
quilombolas foram expostos no encontro, enquanto na parte cultural tivemos
Quadrilha, Ciranda de roda, Jongo, Capoeira e grupos musicais dando o tom da
festa e mantendo a cultura popular mais viva do que nunca. No entanto o ponto
alto do episódio foi a homenagem que foi feita aos Griôs das comunidades,
pessoas com experiência de vida e detentoras de saberes que são passados para
os mais jovens através da oralidade, estes foram lembrados e levaram um belo
quadro com sua imagem para casa como reconhecimento da sua importância.
Griô
ou Griot tem origem africana e refere-se àquele que passa o conhecimento
adquiridos ao longo da vida para os mais jovens, fazendo com que sua
ancestralidade não seja esquecida. Os
griôs são considerados os guardiões da memória e da história do seu povo, sendo
então muito importante na preservação do patrimônio imaterial e cultural de sua
comunidade. Sendo um artesão das palavras, o griô reconstrói o passado em um
evento que inclui voz, expressão corporal e poesia, fazendo com que o ouvinte
faça uma viagem no tempo através do som que dita o rumo da prosa. Graduados nas
ciências da vida, essas pessoas são capazes de relatar com detalhes as
transformações causadas pelo tempo ou ação do homem, seja geograficamente até
comportamentos sociais como conta o nosso homenageado seu Amaro dos Santos ou
como todos chamam em nossa comunidade “Tio Amaro”, representado nessa ocasião
pelo seu filho Dail, pois devido a sua idade não pode comparecer pessoalmente
para receber sua homenagem.
Nascido
em 1924 Tio Amaro conta que chegou ainda criança na localidade de Conceição do Imbé.
Lembra que aqui tinha muita mata e nenhuma estrada e para fazer um percurso
maior era no lombo dos cavalos e burros de cargas. Do trabalho lembra que era
nas lavouras de café e que o transporte era feito nos carros de boi e nas
tropas de cavalos. Depois com o avanço da cultura canavieira os trabalhadores
migraram para a lavoura em expansão e que o trabalho era braçal e sem carteira
assinada. Sobre o transporte do açúcar produzido na fazenda, agora com abertura
de estradas de chão tio Amaro fala que só era possível através dos carros de
boi até a localidade de boa vista, onde era colocado no trem para seguir o destino
final. Da localidade ele diz que morava bastante gente aqui, muitas casas e o
famoso casarão que hoje não existe mais. Sobre o antigo casarão tio Amaro conta
que era grande, tinha uma capela e um salão para o povo dançar. Apesar de não
ter nascido na época da escravidão o mesmo lembra que tinha um porão
provavelmente herança da época dos escravizados. Uma lembrança interessante nos
relatou tio Amaro dizendo que tinha uma família que morava lá no sitio velho (lugar
bem perto da mata e no alto da serra) e estes não trabalhavam para ninguém e
sim para eles mesmos e que vinham poucas vezes ao povoado de conceição do Imbé.
Sendo
bisneto de escravo, tio Amaro tem lembranças de histórias de seus pais, por
exemplo, conta que seu pai dizia que tinha uma senhora muita ruim da época da
escravidão chamada dona Ana Pimenta que mandava matar enforcada as escravas que
não a obedecia e que não dava nada para ela, “essa era ruim mesmo” diz ele. Olha
a memória passada de geração para geração aí.
Das
dificuldades descritas o que chamou a atenção foi a narração de como ele se
deslocava para fazer compras ou pedir socorro quando alguém ficava doente. Mais
ou menos uns 40km era a distância percorrida por ele puxando o cavalo noite a
dentro para chegar ao mercado municipal de campos para vender os produtos e com
o dinheiro fazer a compra do mês, coisa inimaginável para os jovens de hoje em
dia que como ele mesmo diz “hoje qualquer caminhada o pessoal quer ir de moto
ou de carro, naquela época não tinha outro jeito não”. Para conseguir remédio para
a sua esposa quando ficava doente, o jeito era ir a São Fidélis e o trem passava
em Itereré, “aqui não passava carro, era só cavaleiro”, ou seja, no mínimo umas
duas horas a pé para pegar o trem e ir em busca do medicamento.
Tio
Amaro hoje no auge dos seus mais de noventa anos encontra-se lúcido e com toda
sabedoria acumulada ao longo dos anos. Além de ser nosso Griô, pode ser
considerado um patrimônio vivo da comunidade e é mais que justa a homenagem que
recebeu.
































