quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A polêmica sobre as famílias no cativeiro!



Saint-Hilaire- Você naturalmente se aborrece vivendo muito só no meio do mato?
Escravo – nossa casa não é muito afastada daqui; além disso, eu trabalho.
S.H.-você é da costa da África. Não sente algumas vezes saudades de sua terra?
Escravo – não, isto aqui é melhor; não tinha ainda barba quando vim para cá; habituei-me com a vida que passo.
S.H.- mas aqui você é escravo; não pode jamais fazer o que quer.
Escravo – isso é desagradável, é verdade; mas meu senhor é bom, me dá bastante o que comer; ainda não me bateu seis vezes desde que me comprou, e me deixa tratar da minha roça. Trabalho para mim aos domingos; planto milho e mandubis (arachis) com isso arranjo algum dinheiro.
S.H.- é casado?
Escravo – não; mas vou me casar dentro de pouco tempo; quando se fica assim, sempre só, o coração não fica satisfeito. Meu senhor me ofereceu primeiro uma crioula, mas não a quero mais: as crioulas desprezam os negros da costa. Vou me casar com outra mulher que a minha senhora acaba de comprar; essa é da minha terra e fala minha língua.
 
       O texto acima trata de um diálogo registrado no diário do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire que percorreu o Brasil a partir do início do século XIX, e um escravo. Tal encontro teria ocorrido na região do atual estado de Minas Gerais. Nele podemos encontrar assunto para uma série de discussões e questionamentos a respeito da escravidão e do modo de viver dos escravos. A parte que interessa para esta pesquisa é a relativa à roça e a família cativa. No texto fica clara, tanto a roça, para ser trabalhada em seu dia, ou dias de folga, quanto à constituição de família pelo escravo. Com relação à família cativa, tema deste capítulo, sua amplitude e existência, trata-se de campo de pesquisa que passou a despertar maior interesse em períodos e épocas recentes. Seus estudos exigem minuciosa pesquisa, pois “penetrar na comunidade escrava tem sido uma das tarefas mais difíceis que os historiadores se Atribuíram”.[2] Existem muitas referências a família cativa, mas na maior parte dos casos, são documentos que tratam a questão com um olhar impregnado de preconceitos. Muitos relatos se apresentam com riqueza de detalhes, mas que merecem cuidados, afinal, foram produzidos por homens que tinham a escravidão como algo natural e permanente. Boa parte destes relatos acabou por fazer uma descrição desmerecedora sobre a “constituição” de famílias cativas.  Os “olhares brancos” dos viajantes e dos brasileiros e portugueses bem nascidos que escreveram sobre o assunto, simplesmente não perceberam os lares negros devido a seus preconceitos raciais, culturais e ideológicos.[3] Devido a estes preconceitos é que talvez seja possível entender declarações como a de Charles Ribeiroles, que, ao descrever a vida do escravo no cativeiro relatou da seguinte forma:
A fome macilenta não entra na habitação do escravo (...). Mas nela não há famílias, apenas ninhadas. (...) O trabalho, para ele, é aflição e suor, é a servidão. Por que manteria a mãe seu cubículo limpo? Os filhos podem lhe ser tomados a qualquer momento, como os pintos ou os cabritos da fazenda, e ela mesma não passa de um semovente. (...) Nos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem esperanças nem recordações. 
      O relato acima se enquadra como uma clara definição do olhar do homem europeu, branco, bem nascido, dito “civilizado”, diante de um quadro totalmente contrário ao seu, em que o mesmo “acredita” estar diante de um ser “semovente”, pouco ou nada racional, equiparado a coisas e animais. Ribeiroles tinha um padrão definido do que seria uma “família”, e o que vira nas senzalas brasileiras passava ao largo de suas definições “ideais”. Mesmo assim, é através destes relatos e da análise minuciosa de outros documentos, como registros batismais, cartorários, autos de prisão, documentos de compra e venda, processos crime de escravos e ordenações reais, que tem sido possível entender um pouco melhor este seguimento social e suas práticas cotidianas, tanto em propriedades escravistas quanto em aldeamentos quilombolas. Assim como a economia cativa (brecha camponesa), a existência da família escrava também é alvo de polêmicas e discussões acirradas. Schwartz afirma que
a questão da família escrava no Brasil- sua existência, estrutura, estabilidade, longevidade e seu papel dentro da vida dos escravos e da história de seus descendentes- há muito é questão de interesse, mas só recentemente tornou-se tema de pesquisa séria. Os comentários depreciativos de alguns observadores e abolicionistas do século XIX acerca da promiscuidade, da falta de laços de família e da fragilidade desta perante a venda e a separação, foram repetidos e embelezados por historiadores e sociólogos posteriores, para explicar os subsequentes padrões contemporâneos negativos da comunidade afro brasileira.
       Um dos principais críticos á existência da família escrava no Brasil é Jacob Gorender. Para este autor um dos problemas para a formação desta família se encontrava na questão da razão e proporção entre os sexos. O número de homens fora sempre superior ao de mulheres, ficando em torno de 1/3 do total de homens. Logo, realmente podemos entender que houve de fato uma grande desproporcionalidade. Vejamos o que o mesmo diz: 
Acontece que, no segmento dos plantéis grandes e médios, a razão de masculinidade (proporção numérica de homens para cada cem mulheres) era de 188. Demonstração de que, á altura de 1872, a preferência do plantador pelo escravo masculino continuava tão acentuada nas fazendas cafeeiras de Campinas, quanto à época do tráfico africano. Disso resultava que apenas 30% dos homens adultos eram casados ou viúvos.
      Baseado nas afirmações de Gorender pode-se constatar que o número de escravos masculinos e solteiros foi de proporção elevada. A falta de mulheres era realmente um grande empecilho para o desenvolvimento considerável de famílias cativas. Mesmo assim, o mesmo nos afirma que “30% dos homens adultos eram casados ou viúvos”. Acredito que possamos entender este número como algo de proporção considerável. Veremos mais adiante por que. Outros autores como Roger Bastide e Florestan Fernandes, também contrários a idéia de família cativa, seguem na mesma linha de pensamento. Para estes autores, a presença masculina em tal “família”, seria praticamente inexistente. A formação de laços sociais entre os escravizados seria praticamente impossível. Robert Slenes, considerado por muitos o principal especialista em pesquisas referentes à família escrava no Brasil, teceu as seguintes críticas a respeito da análise de Bastide e Fernandes. Vejamos:
Nas propriedades maiores, a experiência de viver numa família conjugal estável era a norma para a maioria de mulheres e crianças escravas. Além disso, em propriedades “maduras”, com muitos anos de funcionamento, essa estabilidade se traduzia na existência de muitas famílias extensas, contando com a presença de três gerações e a convivência entre irmãos adultos e seus respectivos filhos. Se o tráfico africano e interno despejava sempre mais “estrangeiros” (principalmente homens) nas fazendas da região, não é verdade que a maioria dos cativos, muito menos mulheres e crianças, estivessem perdidos uns para os outros, vivendo em condições de anomia. Portanto, as conclusões de Fernandes e Bastide a respeito do processo de aculturação dos escravos, de sua incapacidade “política” e das causas de sua falta de mobilidade social após a abolição, são improcedentes.
      Robert Slenes e Sheila de Castro Faria fizeram comparações entre a demografia escrava do oeste paulista e a do Vale do Paraíba (tanto paulista quanto fluminense), estando incluídos ai os Campos dos Goytacazes. Baseado em tais pesquisas, os mesmos afirmam que “os senhores encaravam o casamento formal escravo não apenas como uma instituição que contribuía para a reprodução, mas também como elemento simbólico para seu domínio.[8]
Entre as fontes utilizadas para pesquisas que objetivam encontrar os indícios da família escrava, as fontes batismais são de grande importância para esclarecer o assunto. Schwartz ao analisar estas fontes no capítulo seis de obra já citada neste trabalho, apresenta a relação de compadrio na vida familiar brasileira. O mesmo tenta buscar a presença do escravo dentro deste sistema.[9] Sobre estas relações, o mesmo nos relata que 
podiam-se estabelecer relações de compadrio de diversas maneiras: por intermédio de casamento, crisma, ou mesmo em certas festividades, como a do dia de São João, quando ao dar as mãos e pular a fogueira juntos, os indivíduos podiam tornar-se “compadres da fogueira.” A igreja não aprovava essas criações populares de compadrio, mas o costume continuou... No contexto do catolicismo, o batismo era a principal maneira de tornar qualquer indivíduo, escravo ou livre, membro da sociedade cristã. Não obstante, os escravos tinham diversos meios de criar elos de associação ou formas de parentesco, tanto dentro das estruturas da sociedade predominante quanto fora delas. Os laços criados pela etnia, pela língua, pela religião e pela política africana continuaram a funcionar no Brasil, como demonstram as rebeliões etnicamente organizadas do início do século XIX.
      Como se pode ver, as relações de compadrio poderiam ocorrer de diversas formas, e objetivavam a formação de laços sendo de sangue ou não. O africano recém chegado, para tornar-se membro da sociedade cristã, teria de ser batizado, e o mesmo ocorrendo com os nascidos aqui, em terras brasileiras, filhos de outros escravos. Se para o batismo se fazia necessário a presença da madrinha e do padrinho, conseqüentemente teríamos de ter, na maior parte dos casos, a presença de ambos os pais. Estaria aí um indício da formação de famílias escravas. Florentino e Góis enfatizam que:
pelo casamento e, antes ou depois, por meio do nascimento de uma criança escrava, vários indivíduos criavam ou estreitavam laços que, nas difíceis circunstâncias da vida em escravidão, eram laços de aliança. A mãe e o pai da “cria” (como aparecem nas fontes) viam reafirmando o propósito comum de juntarem suas forças de modo à melhor viver à vida possível. Ambos arrumavam um compadre e, muitas vezes, uma comadre. E, talvez, cunhados, cunhadas, sogros e sogras. E se a criança, o que não era fácil, sobrevivesse até a idade de procriar, muito mais alargada ainda seria essa rede de laços de solidariedade e aliança. Parece óbvio que a criação de laços parentais fosse desejo de todos os escravos.
      Reconstruir laços, formar nova família, estaria ao lado da liberdade entre os objetivos de vida destas pessoas. Seu surgimento, que é pressuposto para o desenvolvimento da roça escrava, pode ter decorrido de pelo menos dois fatores: a concessão senhorial, visando à manutenção da ordem, ocasionando diminuição nas fugas, e, por outro lado, pressões exercidas pelos escravos na busca por redes de alianças familiares. Albuquerque afirma que “os cativos “buscavam manter relações conjugais estáveis, além de construir redes de parentesco extensas para além dos laços consanguíneos”.
     A relação de compadrio seria um dos meios para obtenção de tais laços. Entretanto, a formação destas famílias enfrentava outros problemas que são apontados pelos críticos, e que estão relacionados à compra e venda de pessoas. Tais críticas partem do pressuposto de que se uma família se formasse, não havia garantias de que ela se perpetuasse, afinal, os senhores poderiam em algum momento vender um dos “cônjuges” e acabar por desfazer esta relação. Com certeza, a ampla maioria dos cativos vivia sob esta ameaça. Mesmo assim, “estudos mais recentes no Brasil têm demonstrado que, nas grandes plantações de café e cana, parte considerável dos cativos conseguiu criar e manter relações familiares.
      A autorização dos senhores escravocratas para a formação familiar, poderia basear-se na idéia de que esta formação poderia fazer com que o escravo se fixasse a terra, e acabasse criando para si mesmo, maiores empecilhos para a fuga, afinal, fugir com mulher e filhos seria algo muito mais difícil. Reis e Silva já nos deram a informação de que no sul dos Estados Unidos, pelo menos 80% dos fugitivos eram homens e jovens com idade média de trinta e cinco anos. Esta afirmativa nos revela indícios de que casais, principalmente com filhos, dificilmente buscariam as fugas. Logo, incentivar o desenvolvimento de família entre os escravos poderia diminuir estes problemas.
Se por um lado os escravos podem ter buscado a formação de famílias, por outro os senhores podem ter encontrado na mesma um instrumento de contenção de fugas e revoltas. Albuquerque confirma esta hipótese afirmando que,
No interesse de garantir condições mínimas de segurança para si e para sua propriedade, houve senhores que preferiam garantir alguma estabilidade familiar aos seus cativos. Na visão desses senhores, o escravo preso ás responsabilidades familiares tinha menos predisposições para fugir ou rebelar-se.
      Pode-se constatar que de fato os senhores viam a formação das famílias cativas como um instrumento para apaziguar possíveis descontentamentos e perdas econômicas provenientes das fugas e do atraso na produção. Fazer concessões aos cativos passa a ser uma opção necessária para a manutenção da ordem do sistema. A utilização única e exclusiva da violência como instrumento de domínio não poderia perdurar por muito tempo. Por mais que senhores utilizassem-na em larga escala durante todo o período da escravidão, estes teriam de enfrentar as reações dos escravizados, que em muitos casos, atentava contra a vida do senhor em igual ou maior proporção.
      A idéia de que certo número de cativos chegou a possuir família e um pedaço de terra para plantar em proveito próprio, não quer dizer que a escravidão não fora malévola. Não está se tentando descrever um cativeiro menos violento ou paternalista. A violência fora utilizada em demasia; não há o que se questionar. Mas há que se levar em conta que havia outros fatores, que são derivados dos constantes enfrentamentos e revoltas que esta violência desencadeava. É a violência contra o cativo que irá levar a sua revolta, e esta reação provocará prejuízos ao seu senhor, que terá de buscar estratégias para controle da escravaria. Por outro lado fica clara a apropriação do escravo destas possíveis concessões em benefício próprio, procurando levar à vida da melhor forma possível, buscando ajustar as condições que lhe foram impostas ao seu modus vivendi. Com relação à formação dos casais, estes também sofriam variações. Os casamentos não se davam apenas entre cativos. Poderiam ocorrer também entre estes e libertos.  Muitos casamentos deste tipo acabaram sendo incentivados por senhores por um fato que passaria a proporcionar um aumento na mão de obra, tendo em vista que o liberto possivelmente passaria a viver na propriedade, já que o escravo dificilmente iria para fora dela.
      A maior parte dos registros de matrimônio constante dos arquivos de várias paróquias no país apresenta um número pequeno de registros de casamento de cativos com cativos. Possivelmente a incidência de casamentos entre cativos e libertos se daria devido à libertação de apenas um dos membros do casal, e que os mesmos já poderiam manter uma relação desde o cativeiro. Como já assinalado, esta situação proporcionaria para o proprietário a manutenção ou aumento da mão de obra, com a permanência do liberto na mesma propriedade do ainda cativo. Os registros oficiais destas uniões são de pequena proporção. Uma das explicações para este fato pode ser esclarecido com a afirmativa de que a maior parte das uniões “estáveis” não passava pelo reconhecimento da igreja. Iraci Del Nero e Francisco Vidal Luna assinalam que:
"ao longo da história brasileira houve predomínio maciço, entre os cativos, do intercurso sexual não legitimado, vale dizer: parcela ínfima das uniões a envolver pelo menos um parceiro escravo via-se sacramentada pela Igreja.
Do exposto, conclui-se que não se verificava rigidez absoluta com respeito às uniões entre indivíduos de segmentos sociais distintos, ainda que raros, entre senhores e seus próprios cativos.
"

      Pode-se concluir que os números dos registros oficiais não apresentam com clareza a totalidade dos casos. Muitos relacionamentos foram “oficializados” apenas mediante autorização senhorial, e sem o reconhecimento da igreja. Conseguir legitimar a união e a conseqüente formação familiar diante da mesma, não seria provavelmente algo fácil. Costa e Gutierrez complementam dizendo que os escravos tinham de desenvolver “formas de convivência que fugia aos hábitos e costumes dos livres, e, sobretudo da igreja católica”. Costa e Luna enfatizam que estas dificuldades estavam ligadas a questão do alto custo cobrado pela igreja para a sacralização do ato. Devido a isto, famílias cativas teriam se formado e perdurado ou não, dentro dos limites da fazenda, sem que fossem feitos os registros oficiais diante da igreja. A conseqüência esperada desta união, pelo menos por parte dos escravos, estava ligada a longevidade da relação. Vale frisar, que esta longevidade estava ligada a estabilidade econômica do proprietário, pois esta influenciava a união e a durabilidade da relação entre os cativos, pois se o mesmo (o senhor) estivesse em boas condições financeiras, não precisaria negociar seus escravos com regularidade, além de possibilitar um maior número de casais. Fato apurado na maior parte das pesquisas se refere à questão de que nos plantéis de número elevado de cativos, é que se verificavam maiores possibilidades de formação de famílias. Metcalf registrou em suas pesquisas em Santana do Parnaíba, que, além disto, houve uma predominância de famílias constituídas por mãe e filho. Vejamos:     
"a estrutura econômica da escravidão em Parnaíba e a instabilidade da vida familiar dos escravos de pequenos proprietários encorajaram a formação de famílias escravas matrifocais. Tais famílias formaram-se como parte do ciclo familiar dos escravos, surgindo em épocas de mudança econômica na vida dos proprietários quando escravos eram vendidos - ou após herança- quando famílias eram separadas. Em tais épocas, o laço familiar mais provável de ser reconhecido e mantido pelos senhores era o entre a mãe e filhos. Por razões bastante práticas conservavam-se frequentemente as mães junto com seus filhos, especialmente os pequenos proprietários, para que elas pudessem continuar a criá-los. O vínculo entre mãe e filhos, foi de certa forma, o menor denominador comum da família escrava, e aquele com maior probabilidade de sobreviver aos deslocamentos durante o ciclo familiar escravo causados por herança ou mudanças econômicas na vida do proprietário".
      Pesquisas realizadas por Edson Fernandes no estado de São Paulo, em Lenções, no período entre 1860 e 1888, constataram uma porcentagem em torno de 1/3 de casados ou que já teriam médio na maior parte das propriedades. Nos inventários de Lenções entre os anos de 1860-1887, 36,8% deles eram casados ou viúvos, sendo 35,7% entre os homens e 38% entre as mulheres.[18] Se o número de mulheres era de fato reduzido, ficando em um terço do número de homens, pode-se constatar que este mesmo número estimado em 1/3 é o que representa o número de escravos que conseguiram formar família. Convenhamos que se trata de um número significativo se levarmos em conta que até algumas décadas, o viver escravo era atrelado ao desrespeito a regras sociais (anomia) e a promiscuidade. Sobre isto, Slenes comparou os casos do estado da Virginia nos Estados Unidos com o Brasil e as pesquisas de Kátia Matoso, e constatou que estes estudos não são suficientes para se caracterizar estado de anomia entre os cativos, mas que se pode identificar “outras estratégias para criar uma comunidade, enfatizando a importância de parentes na substituição de pais e, de não parentes no preenchimento de papéis vazios na família extensa”.
      A constituição de laços funcionaria não apenas como reconstrução ou inserção social por parte destas pessoas, mas poderia ter também o enfrentamento tanto a senhores quanto ao regime como um de seus signos. Pode se entender que o surgimento destas famílias emergiria de um constante “conflito entre escravo e senhor. O senhor é forçado a ceder certo espaço para os escravos formarem famílias, encarando isso, porém como parte de uma política de desmonte de revoltas". Deve-se atentar para o fato significativo de que estas revoltas não seriam fruto apenas da violência imprimida pelo sistema. Poderiam surgir também a partir “de uma reflexão por parte de seus integrantes sobre sua própria experiência, entendendo por experiência o seu passado no continente africano. Sobre a política de concessão senhorial, Slenes entende que a mesma funcionava em certa medida, e que:
      "Ao dar ao escravo algo a perder, ela o torna vulnerável, transforma o cativo em refém. A médio e  longo prazo, contudo, o espaço acaba sendo altamente subversivo, pois é usado pelos escravos como lugar de criação e transmissão de uma identidade própria, antagônica á dos senhores e forjada a partir da descoberta de tradições africanas compartilhadas"
      A formação das famílias cativas se processava em meio a inúmeras variantes. As possibilidades de manutenção familiar estavam sob constante ameaça. Mesmo assim, foi possível verificar algo em torno de 30% de escravos casados e com famílias que em muitos casos se reproduziram em mais gerações. Tendo em vista a crueldade do regime, obter tais “benefícios” fora algo de grande importância para os cativos, que obtinham através destes laços a “reconstrução” dentro do possível, de algo parecido com aquilo que um dia tiveram em sua terra natal e que puderam chamar de família.

Alex Grijó

Fonte: HISTORIAEAVENTURA.BLOGSPOT.COM.BR
http://historiaeaventura.blogspot.com.br/

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A Rota do Escravo - A Alma da Resistência



No filme "A Rota do Escravo - A Alma da Resistência", a história do comércio de seres humanos é contada através das vozes de escravos, mas também dos mestres e comerciantes de escravos.

Cada um conta sua experiência: da deportação de homens e mulheres para as plantações até o cotidiano do trabalho e os movimentos de abolição.

Produzido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), traduzido e dublado pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio).

O continente africano e sua pluralidade

      

      A maioria das pessoas ao ser indagada a respeito de seu conhecimento sobre o continente africano tem na cabeça uma imensidão de terras assoladas por doenças e cheia de animais selvagens, e que seu maior produto de exportação foram pessoas para o trabalho escravo nas colônias do Novo mundo. Este é o pensamento disseminado pelo senso comum e por várias ideologias racistas ao longo dos últimos séculos. Na verdade a realidade é bem diferente desta idéia. A África é o berço da civilização humana, lugar onde sociedades extremamente complexas, com desenvolvimento em várias áreas (acima até dos europeus), foram agrupadas por convenções imperialistas européias no início do século XX, fato este que provocou e provoca enormes conflitos entre os vários grupos reagrupados em busca do controle territorial e das riquezas existentes. Muitos países africanos além de serem grandes fornecedores de inúmeros minerais para a indústria européia, americana e chinesa, possuem uma enorme diversidade de costumes, línguas, construções romanos, pirâmides egípcias, tradições e aspectos múltiplos, que se misturam e se confundem deixando evidenciar suas imensas diferenças.
      A verdade é que existe um passado africano ainda pouco conhecido. Poucos sabem que nos séculos XV E XVI, poderosos reinos dominavam vastas regiões do continente, e o império do Mali chegou a ser mais extenso que o império Romano. Com o passar dos tempos, e mudanças de certas ideologias, passou-se a ver este imenso continente como marginal e atrasado, assolado por povos ignorantes que vivia em pecado e que só a “verdadeira” fé poderia salvá-los. A partir daí tem início um processo de construção de um pensamento que pudesse legitimar a subjugação de um povo, ou de vários, fato  que os europeus já estavam acostumados a fazer, vide o desenvolvimento do império Romano e sua utilização do poderio militar para subjugar vários outros povos na própria Europa, que buscavam outras formas de desenvolvimento diferente da armamentista. A chegada dos europeus e do cristianismo na África trata-se da maior enfermidade que aqueles povos poderiam sofrer em toda a sua História. O legado deixado foi de tristeza e dor. “uma frase interessante, é a de um velho senhor africano relatando a chegada dos europeus e de sua religião. Ele dizia mais ou menos assim: “quando o homem branco aqui chegou, ele trouxe a sua bíblia e nos disse que ela era o instrumento de salvação de nosso povo. Naquele momento nós éramos os donos destas terras. Hoje, passadas algumas décadas, nós temos a bíblia e eles as terras”.
      A visão que temos destes povos nos dias atuais é fruto destes longos anos de espoliação e que tem provocado enormes equívocos até o presente. Atualmente até a própria ciência está mudando sua visão, e à medida que o conhecimento a respeito destes povos se dissemina, o mundo começa, mesmo que vagarosamente, a pensar a África com um pouco mais de respeito. Falamos do terceiro maior continente em superfície, três vezes maior que a Europa, e com uma população três vezes maior.[1] Infelizmente em qualidade de vida e distribuição de renda estes dois continentes são bem mais distantes. Qualquer generalização a respeito deste continente cairá em erro, pois as variadas culturas abarcando religiões, mitologias, hábitos alimentares e seu passado, guardado e transmitido de forma oral por inúmeras gerações, se difere em muito. Isto nos leva a ver que as “Áfricas” são extremamente ricas em diversidades em todos os gêneros, e que esta riqueza passa aos poucos a chegar até nós, estudantes e leitores do século XXI.
      Quando se fala em cartografias, falamos em diversidades, em territórios, povos e culturas. Ao analisarmos a História do continente africano nos deparamos como uma enormidade de fatos que englobam reinos e impérios vastos com acontecimentos interessantíssimos.  Para escrever este texto, fui analisar alguns livros didáticos a respeito daquilo que os mesmos possuíam sobre este conhecimento. Não me surpreendeu não encontrar praticamente nada. Algumas poucas referências ao subdesenvolvimento, a miséria e ao tráfico de escravos.
      Culturas extremamente interessantes e ricas como, por exemplo, as da Região conhecida como Mali, já citada anteriormente, e os antigos Dogons que possuíam conhecimentos de astronomia superiores ao dos europeus. Brecher (1977) diz que “os Dogons possuem conhecimentos sem apoio de qualquer instrumento da ciência, e que não possuem o menor direito de saber.[2] Na região denominada de Tanzânia, “há mais de dois mil anos os Aya produziam aço em fornos que os europeus só foram capazes de utilizar no século XIX.[3] Estes exemplos são totalmente desconhecidos da grande imensidão de brasileiros, que imaginam que o conhecimento humano deriva apenas dos saberes dos povos europeus, difusores da razão, da verdadeira religião e promotores do fim da barbárie vividas pelos povos africanos e americanos. Ledo engano. Outro exemplo de sociedade com avanço em áreas da ciência, diverso dos anteriores citados, foram os povos do atual Zimbábue. Suas construções de engenharia deixaram perplexos estudiosos europeus, que tentaram atribuir aquelas construções a povos exógenos a África. Chegou-se a falar até em alienígenas! Poderia citar vários outros exemplos de avanços de engenharia e ciência, assim como de ricas práticas culturais. Estes exemplos não foram escolhidos ao acaso. Poderia falar dos povos Egípcios, construtores das enormes pirâmides que até os dias atuais intrigam vários pesquisadores. Temos a Líbia, o Marrocos, Angola, entre tantos outros.  A questão é que esta História, destes inúmeros povos, foi deixada a margem devido a necessidade de se legitimar determinados atos, que só poderiam ser praticados contra povos bárbaros. Nascimento nos diz que,
      A tentativa de eliminar a África dos anais da História não dependeu apenas do preconceito acadêmico contra as fontes orais e da alegação da não existência de sistemas de escrita na África. Baseou-se também da própria definição da civilização. Para o eurocentrismo, as civilizações humanas se dividem em duas categorias: a ocidental e a oriental. Como eliminar a África como referência nesse quadro, se várias entre as primeiras civilizações do mundo (a egípcia, a núbia e a de Kusch) originaram-se lá? A solução foi retirar as civilizações clássicas africanas do continente, situando-as como civilizações orientais.[4]
      Como podemos ver nestas poucas linhas, várias foram às civilizações, os acontecimentos que povoaram e ainda povoam o imenso continente africano. Entender estes povos e difundir esta cultura é um dos desafios que se colocam a nós, seres humanos deste século que apenas começa a engatinhar. A África, mesmo ainda cheia de miséria, violência e ignorância, também possui conhecimentos para séculos de estudos, e estes estão apenas começando. 
         
Alex Grijó

[1] Introdução a história da África e da cultura brasileira/coordenação de Beluce Belluci. Ucam: Rio de Janeiro, 2003.p.10.
[2] NASCIMENTO, Elisa Larkin. Sankofa: Resgate da cultura afro brasileira. Rio de Janeiro: Seafro, 1994.p.27.
[3] Idem, P27.
[4] Ibdem, p.29.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A tapioca nossa de cada dia



Inúmeras são as vantagens dessa iguaria que já era consumida pelos índios quando aqui chegamos. A tapioca que além de saciar a fome com maior facilidade ainda possui várias características benéficas a nossa saúde como vitamina do complexo B, Ferro, Cobre e potássio, além de ajudar no ganho do peso saudável, aumento da circulação sanguínea, ajuda na proteção contra defeitos congênitos, melhora na digestão e no metabolismo, redução no colesterol e contribuição na prevenção do diabetes, como também previne a doença de alzazheimer e do coração. Produzida através do amido da mandioca, somente acrescentando água e sal este produto pode ajudar no equilíbrio hídrico do corpo e pode ser consumido por qualquer pessoa, inclusive quem é diabético, ou seja, não tem contraindicação desde que não haja excesso. Outra característica da tapioca é sua riqueza em carboidrato por ser feita apenas do amido da mandioca. Podemos citar também a falta de glúten, podendo então ser consumida por pessoas portadoras de doença celíaca sem problemas, além do mais em sua forma natural é um produto livre de açúcar e gordura.
Desde a antiguidade que os grupos humanos vêm domesticando animais e plantas em seu benefício, deixando assim de viver só do que a natureza lhe oferecia naturalmente. No Oriente Médio por exemplo as evidencias são que a cerca de 8500 A.C. os Egípcios e o pessoal da Mesopotâmia já dominavam o cultivo da cevada e do trigo dando origem ao chamado crescente fértil. A China domesticou o arroz em torno de 8000 A.C., enquanto a América desenvolveu entre 8000 e 1000 A.C. o cultivo de alimentos como o milho, abóbora, batata e feijão. Por sinal a tapioca pode ser produzida através do amido de milho e da batata também, mas vamos tratar somente da tapioca produzida através da mandioca.
No Brasil a estimativa é que a mais ou menos 6500 A.C. os Índios começaram a domesticação da mandioca, por isso quando os Portugueses chegaram já encontraram esta planta dominada pelos nativos, sendo esta uma das mais importantes na dieta das populações indígenas, seja no preparo da Tapioca, farinha ou até mesmo de bebidas.
Considerada um produto de baixo custo e de fácil manuseio devido a sua cultura não precisar de grandes cuidados, além de poder ser cultivada em grande escala por causa do nosso clima favorável ao seu cultivo, a mandioca acabou fazendo parte da base alimentar dos africanos que chegaram ao Brasil como escravos, sendo muitas vezes um dos poucos alimentos nos porões da vida cativa, tanto que no século XVII tinha uma legislação determinando que plantadores de cana de açúcar deveriam reservar um pedaço de terra para que os escravos plantassem mandioca para seu sustento, o que nem sempre acontecia. Por outro lado, nos quilombos a casa de farinha era quase que obrigatório, pois era dela que saía o sustento das famílias aquilombadas através dos produtos como a farinha e claro a tapioca, considerada o primeiro pão brasileiro.

                              Joardelina                                                                                                                    Edelci

 Em nosso quilombo as irmãs Edelci e Joardelina (Jorde) vem mantendo a tradição herdada da sua mãe na casa de farinha, onde a farinha não é o principal produto da casa e, sim a tapioca que é inclusive considerada uma das melhores da região.
Antigas moradoras do quilombo da Laranjeira do outro lado do rio Imbé, as irmãs nasceram na lida da casa de farinha de sua mãe dona Doralice, onde faziam farinha e tapioca para consumo próprio e quando sobrava vendia para a vizinhança. Com o passar dos anos acabaram por vir morar em Conceição do Imbé devido ao trabalho de seus maridos que eram operários da Usina Novo Horizonte. Edelci por exemplo diz que “antes vinha da laranjeira fazia o trabalho e voltava, mas depois vim pra cá por causa do cansaço”. Com Jorde também não foi diferente, devido ao trabalho do seu marido acabou vindo morar aqui dando continuidade à sua luta na fabricação de farinha e tapioca. 



Para essas tapioqueiras as dificuldades não são empecilhos para manter a tradição, pois se depender delas as tapiocas vão ter vida longa no quilombo de Conceição do Imbé e, as novas gerações já estão sendo treinada para que as tapiocas sejam mantidas na comunidade. Joardelina conta que antes tinham mais de 10 casas de farinha no Quilombo, mas que com o tempo as pessoas foram buscando sustento na cidade e acabaram por abandonar as casas de farinha, fazendo com que hoje se resumisse a somente duas em atividade, o que na visão da mesma é uma grande perda cultural para a comunidade.
Manter a tradição é a vontade dessas duas lutadoras em defesa da cultura quilombola em nossa região, pois no mundo capitalista não é fácil trabalhar duro e ganhar pouco, pois desde a colheita da mandioca até o produto final o trabalho é duro e cansativo, mas para elas o que vale é a independência e a esperança de dias melhores, seja na melhoria de suas casas de farinha para que tenham uma condição de trabalho mais favorável, seja na ajuda da família para dar conta da responsabilidade que é manter viva a cultura dos seus antepassados. 

 Polvilho para fazer tapioca

Normalmente quando estamos saboreando a tapioca nem imaginamos no processo que ela passa até chegar a nossa mesa, contudo para que isso aconteça é preciso primeiramente colher as raízes na roça, depois da raspa a mandioca é passada no moinho e será prensada para retirar toda a água a qual vai ficar descansando por mais ou menos um dia e dar origem ao amido que será passado na peneira e só depois colocada no forno em pequenas porções dando formato a nossa tapioca.  
A tapioca vem ganhando cada vez mais a preferência da sociedade nos últimos anos, devido aos seus benefícios para a saúde, como também aos incrementos de acordo com o gosto de cada um. Aqui a tapioca tradicional é quem dita o ritmo, mas a pedido do cliente pode sair outros tipos como tapioca doce e com recheio. Hoje em dia descobrimos que esse alimento pode ser incrementado com qualquer tipo de recheio, dentre eles podemos citar frango desfiado, banana com mel, queijo, leite condensado e praticamente tudo que você quiser. Vale lembrar que de acordo com o recheio os efeitos benéficos vão ser alterados e por isso é preciso cautela no consumo, porém com essa variedade de acompanhamentos será muito difícil fazer regulação na quantidade desta que é símbolo da cultura quilombola no Brasil.

Pesquisa de apoio:
Revista Ciência Hoje, número 326 / volume 55, junho de 2015.
Artigos: Joice Lima de Oliveira e Sônia de Souza Mendonça Menezes A TAPIOCA E SUAS REIVENÇÕES: TRADIÇÃO E INOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE REPRODUÇÃO SOCIAL E ECONÔMICA DE GRUPOS FAMILIARES NA GRANDE ARACAJU

Lairte Almeida

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Memórias do cativeiro



Filme desenvolvido a partir dos depoimentos de descendentes de escravos do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense com roteiro baseado no livro Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição de Ana Lugão Rio e Hebe Mattos.

Direção e Montagem: Guilherme Fernandes e Isabel Castro
Coordenação Geral e roteiro: Hebe Mattos
Direção Acadêmica: Hebe Mattos e Martha Abreu
Pesquisa: Carlos Eduardo Costa, Fernanda Thomaz e Thiago Campos Pessoa
Duração: 42 min

Besouro - O filme - 2009





Besouro (Ailton Carmo) foi o maior capoeirista de todos os tempos. Um menino que -- ao se identificar com o inseto que ao voar desafia as leis da física -- desafia ele mesmo as leis do preconceito e da opressão. Passado no Recôncavo dos anos 20, Besouro é um filme de aventura, paixão, misticismo e coragem. Uma história imortalizada por gerações, que chega aos cinemas com ação e poesia no cenário deslumbrante do Recôncavo Baiano.

Quando Manoel Henrique Pereira nasceu, não havia nem dez anos que o Brasil tinha sido o último país do mundo a libertar seus escravos.

Naqueles tempos pós-abolição nossos negros continuavam tão alijados da sociedade que muitos deles ainda se questionavam se a liberdade tinha sido, de fato, um bom negócio. Afinal, antes de 1888 eles não eram cidadãos, mas tinham comida e casa para morar. Após a abolição, criou-se um imenso contingente de brasileiros livres, porém desempregados e sem-teto. A maioria sem preparo para trabalhar em outros serviços além daqueles mesmos que já realizavam na época da escravatura. E quase todos ainda sem a plena consciência de sua cidadania. O resultado desse quadro, principalmente nas regiões rurais, onde estavam os engenhos de açúcar e plantações de café, foi o surgimento de um grande contingente de negros libertos que continuavam, mesmo anos após a abolição, submetendo-se aos abusos e desmandos perpetrados por fazendeiros e senhores de engenho.

Assim era sociedade rural brasileira de 1897, ano em que Manoel Henrique Pereira, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Haifa, nasceu na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Vinte anos depois, Manoel já era muito mais conhecido na cidade como Besouro Mangangá - ou Besouro Cordão de Ouro -, um jovem forte e corajoso, que não sabia ler nem escrever, mas que jogava capoeira como ninguém e não levava desaforo para casa. Como quase todos os negros de Santo Amaro na época, vivia em função das fazendas da região, trabalhando na roça de cana dos engenhos. Mas, ao contrário da maioria, ele não tinha medo dos patrões. E foram justamente os atritos com seus empregadores - e posteriormente com a polícia - que deixaram Besouro conhecido e começaram a escrever a sua imortalidade na cultura negra brasileira.

Há poucos registros oficiais sobre sua trajetória, mas é de se supor que a postura pouco subserviente do capoeirista tenha sido interpretada pelas autoridades da época como uma verdadeira subversão. Não por acaso, constam nas histórias sobre ele episódios de brigas grandiosas com a polícia, nas quais ele sempre se saía melhor, mesmo quando enfrentava as balas de peito aberto. Relatos de fugas espetaculares, muitas vezes inexplicáveis, deram origem a seu principal apelido: Mangangá é uma denominação regional para um tipo de besouro que produz uma dolorosa ferroada. O capoeirista era, portanto, "aquele que batia e depois sumia". E sumia como? Voando, diziam as pessoas...

Histórias como essas, verdadeiras ou não, foram aos poucos construindo a fama de Besouro. Que se tornou um mito - e um símbolo da luta pelo reconhecimento da cultura negra no Brasil - nos anos que se sucederam à sua morte.

Morte que ocorreu, também, num episódio cercado de controvérsias. Sabe-se que ele foi esfaqueado, após uma briga com empregados de uma fazenda. Registros policiais de Santo Amaro indicam que ele foi vítima de uma emboscada preparada pelo filho de um fazendeiro, de quem era desafeto. Já a lenda reza que Besouro só morreu porque foi atingido por uma faca de ticum, madeira nobre e dura, tida no universo das religiões afro-brasileiras como a única capaz de matar um homem de "corpo fechado".

E Besouro, o mito, certamente era um desses.

Fonte/Crédito: Britosilva

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Do Quilombo de lá para o Quilombo de cá.



Os quilombos foram formas de sobrevivência dos escravos no período da escravidão e continuou sendo constituído mesmo depois da lei Áurea, pois a liberdade não significou ter os mesmos direitos que os brancos e nem mesmo existiam leis trabalhistas que garantissem que esses não fossem escravizados de uma forma velada. Sendo considerado inferiores e não tendo sua humanidade respeitada só restou refugiar-se em algum lugar para poder praticar suas culturas e visão de mundo peculiar que era vista de forma preconceituosa e desprezada pelo senso comum eurocêntrico.
De acordo com a fundação Palmares mais de 2600 comunidades quilombolas tiveram seu reconhecimento de certificação em território nacional até a presente data, porém no Estado do Rio de Janeiro que foi um grande recebedor da mão de obra escrava esses números ainda são contidos em relação a outros Estados como por exemplo Pará e Maranhão. É preciso um trabalho de conscientização e valorização dos quilombolas para que estes comecem a se identificar naturalmente, pois segundo o documentário memórias do cativeiro produzido pela UFF, os antigos evitavam em falar para seus filhos que eram quilombolas e sabemos o porquê dessa omissão. Não tinha nenhuma vantagem em ser um aquilombado, pelo contrário, ser quilombola era ter seus direitos negados pela sociedade que tinha como padrão a cultura europeia. Com isso a memória da cultura africana foi de alguma forma alijada. Por outro lado, buscamos esta mesma memória para resgatar a cultura e mostrar o valor e a luta dos quilombolas em terras brasileiras, assim como identificar os quilombos que com o tempo deixaram de fazer parte do nosso imaginário.
Para contar a história de um lugar, a melhor maneira é contando a história de vida das pessoas que fazem parte do acúmulo de tempo neste território, pois nada melhor do que a memória dos que estão incluídos no processo histórico da comunidade para relatar os acontecimentos ao longo do tempo. Para isto, nada mais propício do que contar nossa história através dos integrantes de nossa gente, em preferencial as mais antigas e que com o tempo acumulou conhecimento e possa nos contar como ocorreu este processo. Lembrando Peter Burke: “buscamos a memória como fonte histórica”, ou como diz Le Goff “a memória deve ser usada para salvar o passado e servir ao presente e ao futuro”.
         Para início vamos recorrer a história de vida da matriarca da família Rocha que mora na comunidade desde 1953. Dona Elzi ou dona “Fia” como todos conhecem. Com 79 anos de idade e a 62 vivendo na comunidade, esta simpática e sempre disposta senhora tem muito saber a passar para os mais jovens e muita história para contar.
         Dona Fia lembra que quando criança passava nesta localidade vindo de Rio preto em direção a casa de seu avô Manuel José Honorato no quilombo de laranjeiras, lugar de difícil acesso do outro lado do rio Imbé. Seu avô ao se casar com Rita Maria de Jesus que era aquilombada naquela localidade foi viver e cuidar de sua vida com os demais que ali praticavam a agricultura de subsistência. Naquele quilombo todos os negros que ali viviam tinham o seu espaço para plantar e colher o seu sustento sem ter um vínculo direto com a Usina Novo Horizonte. Tudo corria bem até a investida de um senhor chamado Nilso Pinto que com a pratica da violência que como sabemos foi corriqueira contra os negros, colocou todos para fora de suas casas e apossou de quase toda área de terra que os quilombolas cuidavam, menos a parte que era do seu avô que enfrentou sem medo a ofensiva do opressor.
         Por sinal a família Pinto, assim como a maioria dos fazendeiros do passado tem um histórico estreito com os quilombolas e com as usinas em nossa região e, sabemos que fazenda e usina tiveram seu alicerce montado em cima do trabalho escravo.  Em Macaé temos o caso do quilombola Carukango que foi morto pelo aparato montado pelo fazendeiro da Freguesia de Nossa Senhora das Neves Capitão Antônio Pinto. Aqui tivemos os Pereira Pinto que eram Usineiros e também políticos. Antônio Carlos Pereira Pinto que foi político e usineiro da região escreveu o livro “quem quebrou a casa de meu pai” contando a saga da usina de Santa Maria pertencente ao velho Jorge como ele o chamou no livro. Neste livro tem uma passagem em que no início do século XX seu pai Jorge Pereira Pinto montou um engenho em Rio Preto ganhando bastante dinheiro, embora não tivesse mais escravidão nesta época, porém foi a alavanca para a montagem da usina Santa Maria e Santa Isabel     em terras campistas, ou seja, não deixava de ser uma herança do trabalho, se não de escravos, com certeza de remanescente dos mesmos.
Voltando a nossa personagem principal, dona Fia nos diz que viveu em Rio Preto até os seus 12 anos de idade quando foi morar em laranjeiras com sua mãe e seus irmãos e ao se casar com seu Chico veio morar em Conceição do Imbé em 1953. Lembra que tinha um casarão onde morava o administrador da fazenda e umas 15 famílias mais ou menos e que nesta época a usina Novo Horizonte já se encontrava sob a tutela do Banco do Brasil e só depois veio a pertencer aos Mols até sua falência ser decretada nos anos 80 do século passado. A casa que hoje mora, dona Fia conta que quando criança e passava por aqui em direção a casa de seu avô em laranjeiras era ponto de parada para beber água e que era morada de encarregado ou alguém com um cargo importante dentro da fazenda. “essa casa é centenária” diz ela sorridente. Vale lembrar que esta fazenda fazia parte de um plantel de área de plantio de cana de açúcar para alimentar a usina Novo Horizonte, fazendo parte além de Conceição do Imbé, Aleluia, Batatal, Cambucá e claro a região de Rio Preto.
         Para mostrar como era difícil a defesa de território contra os fazendeiros vamos falar mais um pouco sobre o avô de dona Fia. Para não ser expulso de suas terras, o seu avô teve que arriscar a própria vida, pois quando o fazendeiro Nilso Pinto alegou ser dele aquela área muita gente foi posta para a rua da amargura com uso de ameaças e da violência, onde casas foram destruídas causando o terror nos quilombolas que ali viviam. Mas seu avô sabendo que o tal fazendeiro não tinha direito algum sobre aquelas terras não recuou e enfrentou a situação sem medo. Para isso primeiro ele deu parte as autoridades policiais relatando o abuso deste senhor, porém nada sendo feito pelas autoridades que mandou que ele defendesse sua área como bem pudesse. Vendo que iria perder seu meio de sustento só restou para seu Manuel montar um esquema de defesa, armando-se e aguardando a chegada do tal homem que botava todo mundo para correr de suas casas. Quando o fazendeiro chegou em suas terras ameaçando todo mundo, seu avô mandou que sua esposa fosse lá fora e mandasse ele ir embora, pois ele não tinha terra nenhuma ali e que se ele insistisse em colocar seus bois ali e partisse para destruir sua morada, assim como fizera com os outros não lhe restava outra opção a não ser agir da mesma forma, ou seja, só restava para sua defesa o uso da violência. O fazendeiro vendo que dona Rita estava debatendo com autoridade e sem medo, desconfiou que tinha algo de estranho e bateu em retirada levando seus animais e deixando-os em paz.
Desse quilombo só quem conseguiu ficar com suas terras foi seu avô Manuel Honorato, inclusive até hoje as terras estão lá. Mas para isto sua mãe teve que continuar a luta de seu avô, pois quando seu Manuel morreu os grileiros apareceram novamente com maquinas e capangas para expulsá-la, sendo que dona Doralice Honorato vendo que iria ficar na rua com seus filhos não recuou e defendeu sua propriedade com unhas e dentes, enfrentando sem medo da morte os invasores que acabaram desistindo da injusta ação.
Assim terminamos a primeira de muitas lutas dos descendentes dos que ajudaram a desbravar essas terras que mesmo depois da libertação da escravidão tiveram que continuar a luta pela sobrevivência e, a comunidade de Conceição do Imbé está ligada diretamente a essa gente que continua suas vidas até a data de hoje com luta, trabalho e perseverança, além de defender a bravura de seus ancestrais através da memória que continua viva como nunca.